Quarta-feira, 07.01.15

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Nós somos Charlie, contra a tirania de qualquer rosto, contra o autoritarismo, contra o totalitarismo; contra o fundamentalismo, venha de onde e de quem vier; somos pela liberdade de expressão; somos pela liberdade; estamos contra o medo e o terror; lutamos por uma sociedade coesa e justa, da igualdade e da fraternidade. Lutamos em conjunto. Vemos que existem causas, lutemos por elas. Je suis Charlie. Nous sommes Charlie!



publicado por Gabriel Carvalho às 17:52 | link do post | comentar

Segunda-feira, 22.12.14

 

No século XX, o Capitalismo não venceu a disputa com o ‘socialismo realmente existente’ pela sua maior capacidade de gerar riqueza, mas sim por se ter imposto como o modelo económico que promovia a democracia, os direitos humanos e as liberdades cívicas e políticas dos cidadãos (o facto de o capitalismo que venceu essa batalha ser o do Estado Social e não o da desregulação que hoje domina merece ser referido).

Depois dessa vitória, já no final do século, a globalização desreguladora do comércio internacional (e liberalizadora dos movimentos de capitais) foi defendida como a melhor forma de trazer a democracia e os direitos humanos aos regimes autoritários dos países menos desenvolvidos, de que o melhor exemplo foi o caso da China.

Mais genericamente, desde a década de 70 até hoje, o Capitalismo, o mais desregulado possível, é defendido como o sistema económico desejável por promover as maiores liberdades dos indivíduos. É esse o argumento moral invocado do Capitalismo, principalmente agora que os supostos benefícios económicos do Capitalismo, depois da brutal crise económica que criou, foram trocados, enquanto argumento, pela simples chantagem dos mercados, que, convenhamos, é um argumento substancialmente menos motivador.

 

Deputados espanhóis da Esquerda Unida no momento da votação da polémica 'Lei Mordaça"

 

Acontece que, apesar de os neoliberais nunca deixarem os factos estragarem os mitos da sua argumentação, nenhuma destas teses tem sobrevivido ao teste da realidade.

Ainda estamos todos à espera (e, temo bem, assim continuaremos) que a globalização que os neoliberais construíram traga a prometida democratização do mundo não democrático e, no que toca ao mundo democrático, os resultados prometidos também continuam ilusórios, parecendo mesmo que o ‘efeito de contágio’ é o inverso do prometido, piorando, isso sim, a qualidade das democracias existentes.

O Capitalismo Neoliberal, quando confrontado com os problemas que ele próprio criou, como a presente crise, prefere sempre sacrificar a qualidade da Democracia e das liberdades individuais a pôr em causa o dogma económico vigente.

São vários os casos que o confirmam. A Espanha, ainda no passado dia 11, nos deu mais um exemplo. Confrontados com uma feroz insatisfação social contra o estado a que o neoliberalismo votou a sociedade espanhola, os neoliberais respondem limitando as mesmas liberdades individuais que usam para promover as suas ideias. Não é caso único, tem-se verificado por todo o mundo ocidental. Na Hungria, as instituições internacionais, incluindo as europeias que tão rápidas são a ameaçar com consequências os países economicamente indisciplinados, como se se tem verificado em relação à Grécia, pouco mais fazem do que emitir umas palavras de circunstância sobre os inúmeros ataques da direita Húngara, no governo, ao Estado de Direito e à separação de poderes.

 

Durante quanto mais tempo aceitaremos as falácias sobre o capitalismo neoliberal servir para promover as liberdades dos Cidadãos? Quanto mais tempo ignoraremos as evidências de o Capitalismo desregulado, ao invés de promover as Democracias Liberais, ser, a prazo, incompatível com elas?



publicado por Gonçalo Clemente Silva às 00:07 | link do post | comentar

Terça-feira, 18.11.14

 

 

 

A desculpa é sempre a mesma, por estes dias aplicada à TAP. As regras comunitárias (quando não são outras quaisquer) impedem o estado de injectar o muito necessário capital nesta, como noutras, empresa pública, o que é verdade. Assim sendo, o estado justifica a alienação da TAP como uma inevitabilidade das regras europeias.

O problema é mesmo que tudo isto nos é apresentado como facto consumado. As regras europeias não surgem do ar, foram discutidas, negociadas e aprovadas, também com intervenção portuguesa, ou de portugueses, nesse processo. Mas, ignorando tudo isto, ignorando que as regras têm uma origem, objectivos e, acima de tudo, uma base ideológica quando são criadas, são-nos apresentadas como inevitabilidades imanentes que decorrem, tal como o poder régio absoluto do antigo regime, de uma espécie de emanação divida.

 

A propósito disso, e da importância da intervenção portuguesa, alguns de nós (poucos, infelizmente) assistem hoje a mais um desses processos negociais. Agora é a vez do TTIP, o tratado de comércio euro-americano que promete mais desregulação e liberalização externa e, seguramente, interna. Este é um excelente exemplo, porque nelee se vê que Portugal nunca deixou de influenciar estas decisões, só afirma que lhe falta esse poder quando quer justificar falta de vontade. Aliás, neste processo, até temos o exemplo de um valente bater de pé do governo (verbalizado pelo seu mais radical ideólogo) à Comissão Europeia e até à própria Alemanha, que está, neste caso, como resultado não intencional de defender o seu próprio interesse, a defender mais o interesse de Portugal que o nosso próprio governo.

 

Assim, perante a passividade geral, o governo continua a fazer de conta que é obrigado pelas regras actuais a avançar com aquilo que de facto quer fazer, ao mesmo tempo que negoceia as novas regras que no futuro usará para justificar novas vagas de políticas neoliberais, apresentando-as então como imposições externas que nada têm que ver com eles.

Foi assim com as regras do euro, com as regras do mercado único, com as regras que impedem o estado de capitalizar a TAP e com muitas outras. Enquanto assim for, e nisso acreditarem as pessoas, haverá poucas possibilidades de alterar o que quer que seja. Mas aparentemente ninguém liga: ‘no pasa nada’…



publicado por Gonçalo Clemente Silva às 11:31 | link do post | comentar

Terça-feira, 28.10.14

 

 

Não acredito em deuses, acho que nunca vou acreditar, e, sobretudo, não acredito num deus pessoal, antropomórfico, como o que nos é o proposto pelos católicos. Além disto, a história da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) de conservadorismo social, intolerância e aversão à ciência, tendo estado quase sempre política, filosófica e cientificamente do lado errado de todas as batalhas pelo progresso (e pela defesa dos mais fracos, que deveria proteger), fazem com que tenha sido sempre muito céptico em relação a toda a aparente abertura do novo Papa.

 

Hoje, acho que fui finalmente convencido. Não, não tive uma revelação, nem passei a acreditar num deus, mas acho efectivamente que este Papa é capaz de estar do lado certo da história. Hoje, o Papa retirou a Igreja de onde nunca devia ter entrado, recusou o literalismo bíblico, rejeitando que um livro com quatro mil anos deva servir como interpretação literal do mundo natural, afirmando que Deus não é “um mágico com uma varinha de condão” e que a Igreja não deve rejeitar a Teoria da Evolução ou a do Big Bang. Acabou com a margem para a tolerância das “pseudo-teorias” do criacionismo ou do ‘design inteligente’.

 

Depois da abertura em relação aos homossexuais e aos tipos não tradicionais de família, bem como de um retomar efectivo das preocupações sociais – verdadeiramente sociais, que passam pelos direitos das pessoas e não pelo assistencialismo controlador (que tanto tem sido a tradição) – pela ICAR no consulado de Francisco, a aceitação da supremacia da ciência, no que ao mundo natural diz respeito, retira a Igreja, pela primeira vez, do pensamento medieval que a tem caracterizado.

A escolha de uma interpretação simbólica, talvez mais profunda, para a Bíblia centra a Igreja na sua função de instituição que visa a consumação dos fiéis com a sua fé, e a essa, por não ter que ver comigo, eu não tenho nada a objectar.

 

Francisco, enquanto Bispo de Roma, sucessor de Pedro, talvez seja um herdeiro (pela primeira vez?) à altura do antecessor de Pedro, seguindo o seu exemplo e, se o conseguir, fazendo uma verdadeira revolução dentro da Igreja. Tal como o antecessor de Pedro, pretende renovar uma religião com mais de dois mil anos de tradições arcaicas, humanizando-a e centrando-a na defesa dos mais frágeis e na sua relação com o seu deus, não pela exclusão, mas pela inclusão.

Se será bem-sucedido, não sei. Não será tarefa fácil e aquele a quem me referia atrás consta que era perfeito e nem assim conseguiu ter grande sucesso na sua época. Mas que promete também ficar para a história, não tenho grandes dúvidas.



publicado por Gonçalo Clemente Silva às 23:42 | link do post | comentar

 

Confesso que gostava que os apoiantes de Seguro defrontassem os apoiantes de Costa em Congresso, devia ser essa a função do Congresso, principalmente tendo em conta que já nem o Secretário-Geral é nele eleito. Não acho desejável que tantos apoiantes de um e outro lado, que durante 4 meses divergiram de forma tão radical e em questões tão fundamentais, não confrontem as suas divergências em Congresso, frente a frente, de forma clara. Não acho desejável, mas acho compreensível.

Não culpo pela ausência desta clarificação os partidários de um ou outro lado, “O homem é ele e a sua circunstância” e, neste caso, parece-me que é sobretudo a circunstância que assim o determina. Essa circunstância foram as eleições Primárias.

 

 

As primárias foram, todos o afirmam, um enorme sucesso. Correram muito bem, demasiado bem, na minha (possivelmente parcial, uma vez que não sou, nem nunca fui, adepto do modelo) opinião.

Correram demasiado bem porque, mesmo que eu tenha querido muito ter Costa na liderança do PS, nunca quis ter Costa, nem ninguém, a liderar o partido com uma legitimidade e, portanto, um poder absoluto, é isso que hoje acontece.

 

O Partido Socialista terá cerca de 100 mil militantes, a avaliar pela história recente do partido, num cenário de disputa eleitoral (o que não será o caso do próximo Congresso), votariam para eleger os delegados ao Congresso Nacional no máximo 40 mil militantes. António Costa foi escolhido numas eleições primárias em que participaram quase 180 mil pessoas, das quais 120 mil deram-lhe a sua confiança. Neste momento e, presume-se, a partir de agora, qualquer líder escolhido em primárias contará sempre com uma muito maior legitimidade política, decorrente de uma maior legitimidade eleitoral, do que o órgão máximo do PS.

 

Agora sim os líderes serão inamovíveis. Qual poderia ser o Congresso, eleito por 30 mil pessoas, que poderia ter força política para eventualmente pôr em causa uma liderança legitimada pela confiança de 120 mil cidadãos?

Com a introdução das eleições directas, os Congressos já viram o seu peso e a sua utilidade substancialmente reduzidos (o que é, na minha opinião, muito negativo, como já expliquei noutro texto). Com a introdução do modelo de primárias, quando ligado umbilicalmente à liderança do partido, que é o caso, os Congressos ficarão definitivamente reduzidos a, utilizando a expressão que uma vez o Pedro Delgado Alves usou para escrever alguns congressos, uma espécie de ‘congrício’: formalmente um congresso, na prática um comício.

 

Assim sendo, os Congressos mais não serão do que um arcaísmo formal, herdado de tempos anteriores, mas já sem grande utilidade. Isto não seria muito mau, mas há outras consequências funestas desta alteração.

 

Desde logo, a questão que eu comecei por colocar sobre a possibilidade de se porem em causa as lideranças, o que já é suficientemente mau, mas não só. Sem disputas em Congresso (e este era um problema que já existia desde a introdução das directas, sendo agora ‘apenas’ agravado), as eleições têm a tendência para se tornarem crescentemente pessoalizadas, desligando-se de uma verdadeira discussão de projectos que, sendo também constituídos por pessoas, não podem nunca ser reduzidos apenas à sua liderança. Não podemos queixar-nos (incluindo aqui toda a comunicação social e os comentadores que tanto o fizeram na campanha para as eleições primárias) da ausência de diferenças programáticas se, pelas próprias regras instituídas, fomentamos um modelo em que se foca a escolha apenas na diferença de personalidades, porque são apenas essas que vão a votos no momento mais importante.

Por último há uma outra desvantagem, que tem também que ver com o universo eleitoral das primárias: o esvaziamento da participação partidária. Se o sistema de eleição se torna mais pessoalizado e nacional, contrariando as dinâmicas de grupo e negociação anteriormente dominantes, ao mesmo tempo que se retira o direito exclusivo de voto aos militantes na escolha da liderança, então, além de se esvaziar o Congresso, esvazia-se por completo, em termos de influência, a militância partidária. Qual será a função real de ser militante partidário no cenário que se desenha é para mim uma completa incógnita, mas, tendo em conta que não há nenhuma Democracia funcional sem partidos e não há partidos sem militantes, é uma incógnita preocupante.

 

Temo bem que as primárias façam escola no nosso sistema político e que isso possa não ter bons resultados, espero estar enganado.



publicado por Gonçalo Clemente Silva às 01:21 | link do post | comentar

Sexta-feira, 17.10.14

 

 

Rui Ramos conseguiu, na sua última crónica no jornal oficial do neoliberalismo, superar-se a si próprio, atingindo um nível de desonestidade intelectual que nem dele eu esperaria.

Nela, critica as declarações, conhecidas esta semana, em que Ferro Rodrigues afirma que “Não se pode, evidentemente, ao mesmo tempo, defender o progresso do Serviço Nacional de Saúde, defender o progresso da escola pública, defender o progresso na capacidade da proteção social e depois ter promessas desbragadas em matéria de diminuição dos impostos”.

Para mim, Socialista que sou, estas afirmações fazem imenso sentido e são uma clarificação importante sobre o caminho que a Esquerda democrática tem de percorrer se quiser verdadeiramente inverter o domínio do neoliberalismo na nossa sociedade. Compreendo que o Rui Ramos, defendendo o que defende, não concorde com isso e acredito que existam argumentos válidos em sua defesa, mas não os que utilizou. Nesses, nem ele acredita.

 

Rui Ramos estabelece uma identidade entre austeridade e a carga fiscal, dizendo depois que “o que Ferro Rodrigues nos quis dizer é isto: ou mantemos a austeridade (o “assalto fiscal ao trabalho”), ou não há Estado social”, ou seja que, para o PS, “o Estado social é a austeridade” (Rui Ramos depois afirma que não tem de ser assim, dando o exemplo do estado social existente durante o tempo de Marcello Caetano, mas deixemos as simpatias dele pelo anterior regime de parte). Numa conversa de café seria admissível ouvir este argumento de um qualquer chico-esperto, mas não de alguém que é historiador e doutorado em Ciência Política, nesse caso é só desonesto.

 

A austeridade não é só aumentos de impostos. A austeridade é a consolidação orçamental que se faz através do aumento da carga fiscal (e há muitas formas de fazer esse aumento, diferentes da que foi seguida) associado a um corte nas funções e na despesa do estado, não esquecendo a componente de compressão salarial (pela via do aumento do desemprego ou das chamadas ‘reformas estruturais’, como são da diminuição dos direitos laborais), indispensável à melhoria da competitividade externa.

Se desconsiderássemos, como faz Rui Ramos, todos os outros factores que referi e entendêssemos que a austeridade significa só aumento de impostos (ou manutenção de impostos altos, que é isso que Rui Ramos lê nas afirmações de Ferro Rodrigues) então a Dinamarca, a Finlândia e a Suécia estariam entre os campeões da austeridade na Europa, com cargas fiscais de 56.3% (do PIB), 56.0% e 51.6%, respectivamente, quando em Portugal ela é de 43.7%.

Eventualmente, Rui Ramos, no seu fervor neoliberal, poderia, não sendo economista, esquecer tais factos. O que é particularmente ridículo é que, sendo historiador, ignore o período que se seguiu à grande depressão nos EUA e à Segunda Guerra Mundial na Europa, em que os governos de esquerda promoveram significativos aumentos de impostos e de despesa pública, não como política de austeridade, o que é evidente para qualquer pessoa séria, mas exactamente para combater os efeitos das crises económicas e das políticas de austeridade que lhes antecederam.

 

Não vou sequer, porque não vale a pena, alongar-me sobre o facto de a mesma pessoa que acha que “Quando comparamos a ditadura salazarista com as suas contemporâneas, a contabilidade repressiva é modesta” poder afirmar que para os outros, supõe-se pelo contexto que seja Ferro Rodrigues e o PS, “o Estado social vale sobretudo como um instrumento do domínio da sociedade pela oligarquia política”; já estamos habituados a estes devaneios do historiador oficial da direita liberal na economia e conservadora na democracia. O que tem de se referir é que, vindo de alguém com o currículo e o percurso de Rui Ramos, nada disto é inocente, é uma tentativa consciente de enganar as pessoas com recurso retórica elaborada e a uma suposta reputação ‘académica’.

O que é efectivamente grave é que continue a ser dada credibilidade a gente que demonstra tamanha falta de honestidade intelectual, estando disposta a tudo, mesmo a enganar deliberadamente os outros, para fazer avançar as suas opiniões políticas.



publicado por Gonçalo Clemente Silva às 01:47 | link do post | comentar

Segunda-feira, 06.10.14

"18.

Sim, foi essa

A primeira miséria, a deserção

Dos deuses. A segunda, a sua morte,

Já na morte de Pã anunciada

Pelo lamento dos bosques, o clamor

Lutuoso das Ilhas do Egeu.

Esse grito o escutou o outro Friedrich,

Dionysos de seu nome, o europeu,

O anunciador, o que caminha

Sobre águas estagnadas e parece,

Ao afundar-se, desenhar no lodo

Um mapa para o qual não há leitura.

 

19.

A segunda miséria: não a morte

Do deus crepuscular, do invasor

Que proibiu a imaginação

E tirou à tragédia dignidade -

Pois muito longe de morrer está esse.

A morte, uma falência quotidiana

Da limpidez, da arte e da divina

Coloquialidade com o mistério

E com o semelhante, a que extinguiu,

Como um sopro de fogo na planície,

Ao mesmo tempo o vivo e o seu rasto.

 

20.

E veio outra miséria, em interlúdio:

A miséria da interpretação

Que tudo trai. Os textos, os tão belos

Textos do ódio e da melancolia

Carragavam os sacos dos soldados

Como pães doces, abolorecidos,

Alimentavam quem? Persas, de novo.

Persas vindos do Norte, equivocados

Com o som do poema, com a ira

Formosa do poema.

 

23.

A terceira miséria é esta, a de hoje.

A de quem já não ouve nem pergunta.

A de quem não recorda. E, ao contrário

Do orgulhoso Péricles, se torna

Num entre os mais, num entre os que se entregam,

Nos que vão misturar-se como um líquido

Num líquido maior, perdida a forma,

Desfeita em pó a estátua."

 

In 'A Terceira Miséria', de Hélia Correia



publicado por Rui Moreira às 22:53 | link do post | comentar

Domingo, 05.10.14

Vivo constantemente com a sensação de que é sempre possível viver num melhor e mais perfeito Estado democrático, numa melhor e mais perfeita república, aliás, julgo que o republicanismo também implica essa inconformidade, esse incomodo, essa busca, e portanto, nada melhor do que evocar o lamentável Presidente da República que temos, e ainda mais, os aspetos que me levam ao incomodo, à inconformidade, e a vontade que desapareça do lugar que ocupa, para novamente escolhermos. Considero que o atual ocupante do Palácio de Belém é uma degenerescência do regime democrático, no seu caráter de imperfeição - como diria Churchill -, isto apesar de resultar da escolha popular democrática. Alguém que teima em considerar-se a si e aos seus acima dos cargos que ocupam, e de afirmar tacitamente que chegou ontem, não serve a República e está longe de a considerar. Que desocupe o lugar é o meu desejo para este dia de aniversário da República.

Eça faria dele uma personagem menor nos seus romances, e a caricatura de uma certa classe do país, Bordalo Pinheiro poria a arte das Caldas e a imagética caricaturista no bom ofício da crítica social. Nem precisaríamos de um qualquer artista de Barcelos, que em vez de se ocupar de galos em barro, contribui, provavelmente por desconhecimento e falta de informação, para a promoção de quase 50 anos de um tempo que nunca pertenceu à República! Viva a República!



publicado por Gabriel Carvalho às 15:03 | link do post | comentar

Terça-feira, 30.09.14

Antes de António Costa aproveitar a enorme falta de bom-senso de António José Seguro na noite eleitoral das eleições europeias, o PS tinha uma tarefa decisiva no horizonte – governar de modo substantivamente diferente do actual governo. Essa seria a razão principal pela qual o PS (e consequentemente António José Seguro) muito provavelmente teriam ganho as eleições legislativas em 2015. A tarefa de governar de modo verdadeiramente alternativo ao actual governo não seria nada fácil face a todos os condicionalismos existentes mas seria absolutamente crucial. Em caso de insucesso, não seria difícil antever a transformação de um eleitorado desconfiado num eleitorado descrente em qualquer solução política para a crise, com consequências imprevisíveis no sistema partidário e na qualidade da nossa Democracia, o que apenas contribuiria para agravar as duras condições de vida da maioria dos portugueses.

 

Essa tarefa árdua ficaria necessariamente comprometida à partida no caso de coligação com o PSD. Nesse sentido, António Costa permitiu manter a esperança que o PS cumpra o seu papel. Mas não fez (nem poderia fazer) mais do que isso porque, ao contrário do que muitos dos seus apoiantes acreditam ferozmente, a chegada do PS ao poder não é um fim mas um meio. Ou seja, mesmo que obtenha maioria absoluta, essa vitória apenas será, tal como a vitória nas primárias, um meio de Costa cumprir a tarefa que antes aguardava Seguro – governar de modo diferente deste governo no conteúdo e na forma.

 

Noutras circunstâncias esta diferença esbater-se-ia mas nos dias que correm ela será fundamental. Tal como as regras costumeiras de chegada ao poder num partido político não se aplicaram a Seguro, as regras costumeiras da alternância “light” dificilmente continuarão a ser aceites pelos portugueses. Não sei se António Costa tem a percepção da importância de não falhar no governo mas convém que comece a pensar muito seriamente numa estratégia para isso não acontecer. Escrevo “pensar” propositadamente pois mais importante que comunicar eficazmente essa estratégia, algo que a maioria dos comentadores considera a principal tarefa de Costa nos próximos tempos, é construí-la sistemática e globalmente. Para depois a comunicar sectorialmente.  

 

Uma estratégia deste tipo tem de ser (no mínimo) inventiva para permitir controlar algumas condicionantes e demonstrar que um governo não é apenas um grupo de funcionários bem-intencionados que lidam com as circunstâncias. Um dos problemas estruturais desta crise é o cerco à Política feito pela narrativa da ausência de alternativa realista, atirando-a para um reduto de mera decisão (inevitável). Ora a Política tem de transformar, tem de ter capacidade de moldar ou romper as condicionantes, pelo que um governo tem, para além de lidar com as circunstâncias, de ter a capacidade de criar novas circunstâncias.

 

Resumindo, se Costa perceber tarde o que está verdadeiramente em causa… pode ser tarde de mais. Mas mesmo depois de perceber, resta a verdadeira prova da governação. Até lá, resta apenas a esperança.

 

Joos de Momper, Tobias' Journey (séc. XVII)


publicado por Pedro Silveira às 21:37 | link do post | comentar

Sexta-feira, 26.09.14

 

Nos textos anteriores (aqui, aqui e aqui) já abordei as razões que, ao longo dos últimos anos, conduziram à crise no PS, que já existia e da qual a candidatura de Costa é apenas a solução encontrada para a resolver. Não posso, no entanto, fechar este ‘ciclo’ de textos sem abordar a causa próxima do surgimento desta crise, principalmente para desmentir a narrativa que Seguro tem construído ao longo dos últimos meses sobre a crise no PS.

 

Acima de tudo, e para que fique claro, é importante desmentir o argumento de que a crise foi criada por Costa e que o PS estava bem depois das eleições europeias, sem que houvesse razão para Costa avançar. Acontece (feliz coincidência imagino) que vivemos na era da informação e isso, por si só, permite-nos, sem grande esforço, pôr a nu todo o problema que se criou com o resultado pífio do PS nas europeias. As reacções pela parte da maioria aos resultados eleitorais estavam em todos os jornais, de forma completamente descarada, como no caso do Expresso, sob o título ‘PSD e CDS fazem figas por Seguro’:

«"Grande vitória de António José Seguro, foi uma grande vitória do líder socialista", era a mensagem repetida à exaustão. No dia em que a coligação voltou a acreditar que pode ganhar 2015, manter o atual líder socialista passou a ser ainda mais vital para que a equação funcione.»

Ou ainda, no caso do Público, sob o título ‘Resultados das europeias dão alento à maioria e reforçam coligação pré-legislativas’:

«Os poucos pontos de distância que separaram o PS do PSD/CDS nestas europeias deram uma nova esperança à coligação de poder ganhar as próximas legislativas.»

 

Seguro pode arranjar as justificações que entender, pode argumentar até à exaustão com o ‘comparativamente’ bom resultado dos Socialistas em Portugal, mas há coisas indesmentíveis. Uma delas é o mau resultado do PS nas eleições europeias, evidente ao ponto do PS ser enxovalhado em público com estas notícias sobre a vontade da maioria ‘segurar’ (passe a repetição) o líder do PS, para que tivesse hipótese de ganhar em 2015.

Não foi só a ‘oposição interna’ que achou o resultado mau, aliás os únicos que acompanham Seguro ao ver com bons olhos o resultado do PS são mesmo os partidos da maioria.

 

Sejamos claros, nem sequer foram os resultados eleitorais que criaram a crise no PS, quem criou a crise no PS foi Seguro e o seu péssimo mandato enquanto Secretário-Geral. Os resultados das europeias meramente puseram ‘às claras’ aquilo que muitos de nós já tinham visto. Depois disso a campanha de Seguro (que em nome da elevação me abstenho de aqui qualificar), os truques de secretaria e todas as manobras que foram feitas apenas reforçam a urgência daquilo que tinha sido claro e motivam o pedido que Costa fez ontem e hoje: tem de haver resultado claro de rejeição, já não só destes últimos três anos, mas de toda esta forma de estar na política.

 

Juntando tudo isto à esperança que Costa devolve ao PS, encontra-se a razão pela qual o voto na candidatura de Costa não é só uma boa aposta, é uma necessidade. Costa trouxe de novo ao PS ambição e vontade, mas trouxe de volta ao PS uma grande parte do PS. Não me refiro à malta do Sócrates, refiro-me a uma boa parte do PS que nem sequer apoiou Sócrates.

Para mim que sou daquilo que se chama ‘ala Esquerda’, mas que pode bem melhor ser descrito como a ala Sampaísta-Ferrista do PS (de onde Costa também provém, ao contrário de Sócrates e Seguro), Costa traz de novo todos nós, não para o PS de onde nunca saímos, mas para uma participação cheia de energia e esperança que (pelo menos eu) já não se sentia desde 2004. Não é por acaso que tantos dos maiores vultos do PS apoiam Costa (desde Soares, aos próprios Sampaio e Ferro Rodrigues).

Mas Costa traz mais, com ele vem toda uma nova geração empenhada em mudar a política a economia e a sociedade, juntando o idealismo, que tanto tem faltado, à qualidade política.

Por tudo isto o Duarte Cordeiro teve toda a razão em afirmar, ontem na Aula Magna: "Estas eleições não são só as eleições de António Costa, são as nossas eleições"

 

Domingo, vamos ganhar o PS, recuperar a confiança dos Portugueses e mudar a política.

 

 



publicado por Gonçalo Clemente Silva às 23:42 | link do post | comentar


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