Terça-feira, 28.04.15

 

 

Antes de mais, não percebo a comparação de Thomas Piketty com Karl Marx. A ser feita uma comparação, faria muito mais sentido compará-lo com John Maynard Keynes, que (de forma semelhante com Piketty) nunca foi comunista (foi até anti comunista), nem sequer socialista, era um membro do partido Liberal.

 

Piketty esteve em Portugal e, além de esgotar a lotação de três auditórios na fundação Calouste Gulbenkian, encontrou-se com diversos líderes da esquerda moderada, de António Costa a Sampaio da Nóvoa, passando por Rui Tavares.

Deu também uma excelente entrevista em que torna claras muitas coisas sobre a crise e a actual situação europeia e portuguesa. Ficam aqui uns excertos que me pareceram particularmente propícios como semente para a reflexão:

 

«Os políticos são escravos da opinião pública. Por isso o importante é contribuir para transformar a opinião pública dominante, mais do que convencer os políticos.»

 

«O que é realmente dramático é que transformámos uma crise que nasceu no sector financeiro privado americano numa crise de dívida pública, apesar de, inicialmente, a Zona Euro não ter mais dívida do que os EUA, o Reino Unido ou o Japão. E conseguimos, apenas por causa das nossas más instituições e más decisões macroeconómicas, criar uma crise a partir do nada.»

 

«Não vamos encontrar o nosso futuro na Europa se todos nos tornarmos paraísos fiscais. Sei que em Portugal há esta discussão de baixar o IRC de 21% para 17%, a seguir vai ser de 17% para 10% e depois de 10% para zero. Se continuamos por esse caminho, daqui a 10 ou 20 anos não haverá impostos sobre as empresas na Europa.»

 

«Falaram-me [o PS] do programa que apresentaram para as eleições. Parece-me ter medidas muito razoáveis. [...] estão a pensar criar um imposto sobre as heranças mais elevadas. Não digo que tenha de haver um imposto muito pesado, mas penso que esta medida vai no sentido certo. Se se recebe 100 mil euros com o trabalho, paga-se impostos. Não faz sentido receber um milhão, 10 milhões de euros sem trabalhar e não pagar nada.»

 

«O que o líder do PS me disse foi que têm um plano A e um plano B. O plano A é assumir que seguimos as regras do Pacto e o plano B é tentar mudar as regras na Europa. Para mim faz sentido ter estas duas abordagens.»

 

Há muito que ficou de fora e vale mesmo a pena ler a entrevista na íntegra.



publicado por Gonçalo Clemente Silva às 21:04 | link do post | comentar

Segunda-feira, 20.04.15

A novilíngua que sub-repticiamente se tem apoderado do discurso vigente alicerça-se, tantas e tantas vezes, em mitos e conceitos pouco credíveis. As crenças de poucos tornam-se os dogmas de muitos. Questioná-los, nem sempre é fácil e pode até tornar-se uma experiência perigosa. E assim, qual vórtice, é a lógica dominante que tudo suga, criando a espuma dos nossos dias.

 

O dia em que Mariana Mazzucato participa numa conferência sobre políticas públicas de apoio à inovação, organizada pelo Partido Socialista, afigura-se como o momento ideal para replicar o seu inestimável contributo. Assim, surge na alcateia um uivo de alerta para a importância do Estado enquanto motor dinâmico da ciência e da economia, o qual subverte a ideia da iniciativa privada como força inovadora por excelência.

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“(…) l’imprenditorialità – quella che oggi, apparentemente, tutti i politici e tutti gli altri funzionari sono desiderosi di incoraggiare – non è (solo) una questione di start-up, venture capitals e geni individuali che inventano prodotti rivoluzionari nel garage di casa. È una questione di volontà e capacità degli operatori economici di accollarsi il peso dei rischi e di una reale incertezza di Knight, cioè quello che è effettivamente sconosciuto. (…) Investimenti tanto radicali, che comportavano un elevatissimo livello di incertezza, non sono avvenuti grazie a venture capitalists o inventori da garage. È stata la mano visibilie dello Stato che ha dato corpo a queste innovazioni.” (Mariana Mazzucato, O Estado Inovador, 2014)

 

Numa época em que o empreendedorismo, mais propriamente o empreendedorismo que resulta do investimento de empresários em micro ou pequenas organizações, tem sido apregoado como a panaceia para alguns dos problemas estruturais da economia portuguesa, visões como a da economista italiana ajudam a refutar esta perspectiva, já que relevam o papel fundamental do Estado na inovação. Ao contrário dos arautos do neoliberalismo, Mariana Mazzucato olha para o Estado como um motor dinâmico, a quem não cabe apenas assegurar as funções vitais de uma sociedade. Na sua opinião, sem a capacidade e a vontade do Estado, dificilmente haveria investimento em sectores realmente inovadores, já que o risco de tal aposta é, habitualmente, demasiado elevado para a iniciativa privada. Para fundamentar a sua posição, dá o exemplo da “revolução verde”.

 

Mas, a economista italiana vai mais longe e lança uma ideia, no mínimo, provocadora: e se o milagre de Sillicon Valley se devesse ao investimento público? No seu entender, sem que tal investimento tivesse acontecido, empresas como a Apple não seriam o que hoje são. Isto porque muitos dos elementos revolucionários que se encontram na base do iPhone foram financiados por fundos estatais (por exemplo o Siri, o GPS, a internet ou o sistema táctil).

 

Mariana Mazzucato defende, assim, que a mão visível do Estado, consubstanciada no apoio das instituições públicas à inovação, é o verdadeiro dínamo transformador da estrutura económica de um país. Foi assim que aconteceu no Estados Unidos, quando a Darpa financiou o investimento na internet, mas também foi assim no Brasil, onde o Bndes se tornou num dos maiores investidores no sector das tecnologias verdes. No entanto, para a economista italiana, tal aposta só é possível se essas instituições públicas puderem usufruir de “capitais pacientes”. Isto é, se existirem instituições financeiras com capacidade de pensar segundo uma perspectiva de longo-prazo, como acontece com o KfW na Alemanha.

 

Por conseguinte, o discurso dominante, suportado pela ideia de que o voluntarismo e a boa vontade são condições suficientes para transformar as estruturas económicas de um país, é desmistificado. Para Mariana Mazzucato, o Estado é, per se, uma força dinâmica e inovadora, ao qual cabe um papel insubstituível na promoção do crescimento inteligente. Esta perspectiva chega, inclusivamente, a colidir com a argumentação de alguns líderes de Esquerda, que insistem na ideia de que não cabe ao Estado criar postos de trabalho ou que enfatizam, permanentemente, as virtudes do discurso do pequeno empreendedorismo.



publicado por João Moreira de Campos às 14:40 | link do post | comentar

Quinta-feira, 02.04.15

A novilíngua que sub-repticiamente se tem apoderado do discurso vigente alicerça-se, tantas e tantas vezes, em mitos e conceitos pouco credíveis. As crenças de poucos tornam-se os dogmas de muitos. Questioná-los, nem sempre é fácil e pode até tornar-se uma experiência perigosa. E assim, qual vórtice, é a lógica dominante que tudo suga, criando a espuma dos nossos dias.

 

Distante dos uivos há já algum tempo, decidi regressar à alcateia vociferando o que não me pertence. Através de vozes sapientes, trago uivos que se assumem como abordagens alternativas à realidade imediata. Surge, então, este ciclo curto de ideias de certa forma subversivas, o qual se inicia com uma das visões que mais tem inquietado o campo da economia, a de Thomas Piketty.

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To put it bluntly, the discipline of economics has yet to get over its childish passion for mathematics and for purely theoretical and often highly ideological speculation, at the expense of historical research and collaboration with the other social sciences. Economists are all too often preoccupied with petty mathematical problems of interest only to themselves. This obsession with mathematics is an easy way of acquiring the appearance of scientificity without having to answer the far more complex questions posed by the world we live in.” (Thomas Piketty, O Capital no Século XXI, 2014:32)

 

Neste caso, Thomas Piketty reflecte sobre o apego excessivo dos economistas a modelos matemático-dedutivos, assim como realça a escassez de abordagens interdisciplinares que conjuguem a economia e outras ciências sociais. Por conseguinte, a capacidade que as ciências económicas têm para responder a questões complexas é limitada. Este uivo remete-nos, de certa forma, para a ideia tão actual da economia como entidade sacrossanta. A economia acima de tudo, com capacidade para explicar qualquer dimensão da realidade. Realidade em que tudo possui um valor exacto, em que tudo é mensurável. Até a vida.



publicado por João Moreira de Campos às 19:14 | link do post | comentar

Terça-feira, 03.03.15

 

O caso tecnoforma já nos tinha deixado, por nada ter ficado claro, algumas dúvidas em relação à forma como o actual Primeiro-Ministro conduziu a sua vida profissional e contributiva, mas agora, com a história da falta de pagamentos à Segurança Social, saímos do campo das dúvidas para o campo das certezas.

É inadmissível que um Primeiro-Ministro tente justificar a sua evasão contributiva, porque é disso que se trata, com o desconhecimento da lei. Primeiro é inadmissível porque nenhum cidadão o pode fazer, depois é ainda mais inadmissível porque a falha por desconhecimento aconteceu depois dele ter sido Deputado, ou seja, depois de ele ter feito parte do selecto grupo de pessoas que escrevem e aprovam as leis que ele alega desconhecer. É inaceitável que um ex-Deputado se defenda alegando não saber aquilo que qualquer trabalhador normal sabe e tem obrigação de saber. Ainda assim, porque não podemos provar que está a mentir, não sendo aceitável como justificação, é uma razão que temos de tomar por boa. O grande e indesculpável problema é exactamente a forma como ele lidou com toda esta asneirada.

 

Como muitas vezes acontece em política, o problema não foi o fuck up, a asneira, porque os políticos, como todas as pessoas, também erram e isso é admissível, o problema foi o cover up, a forma como, em vez de se assumir e corrigir o erro, se tentou encobri-lo.

 

Sabemos agora que Passos Coelho sabia desde 2012 da existência desta dívida sem que nada tivesse feito até estarmos nas vésperas do escândalo rebentar. Ou seja, o Primeiro-Ministro não demonstrou qualquer vontade de corrigir o erro até ele ser um problema de imagem. Para ser mais claro, o facto de ele não ter pago as contribuições para a Segurança Social em nada o incomodou, não fosse essa coisa chata de se ter descoberto.

 

Mas pior, isto significa que enquanto passos coelho fazia discursos moralistas, no fim de 2012, dizendo que os pensionistas "estão a receber mais do que descontaram", ele provavelmente já sabia que ele não tinha descontado tudo o que estava obrigado a fazer e nada fez quanto a isso. Também quando afirmava, em 2012, pertencer a uma ‘raça’ de homens que paga o que deve, já saberia, ou estaria quase a saber, que não tinha, nem pouco mais ou menos, pago tudo o que devia ao próprio estado que tem a incumbência de gerir. Os exemplos de hipocrisia e falta de carácter demonstrado por nada ter feito para honrar as suas obrigações depois de saber do sucedido seriam infindáveis. Enquanto o seu governo penhorava os bens de milhares de pessoas com dívidas menores à Segurança Social, Pedro Passos Coelho sabia não ter cumprido com as suas obrigações e nem por um momento sequer teve intenção de regularizar as dívidas que tinha deixado por pagar até ser avisado que isso se saberia. Pior ainda, mesmo agora que quis evitar um problema de imagem pagando a dívida antes de a notícia sair a público, Passos apenas quis parecer que cumpria as suas obrigações, porque nem sequer se certificou de que deixaria toda a sua situação regularizada, apressando-se a pagar o mínimo que podia só para nos tentar atirar areia para os olhos. Isto, talvez mais que tudo o resto, demonstra bem a real falta de preocupação de Passos em cumprir com as suas obrigações, querendo apenas fazer os mínimos para ter uma desculpa. 

 

Para Passos Coelho, uns milhares de euros (que para mim, como para tantos outros, seriam impossíveis de pagar, mas para ele provavelmente não) são mais valiosos do que a imagem, a credibilidade e a honra do Primeiro-Ministro da República, e isso é gravíssimo. Se a isto juntarmos a enorme falta de carácter que todo este episódio demonstra, é inevitável a conclusão que qualquer homem com um mínimo de honra ou vergonha na cara se demitiria na hora e, na falta desses mínimos de moralidade no Primeiro-Ministro, qualquer Presidente da República decente o demitiria imediatamente.

 

Infelizmente, nem o Primeiro-Ministro nem o Presidente da República possuem os mínimos de decência exigíveis a qualquer detentor de cargo público.



publicado por Gonçalo Clemente Silva às 14:15 | link do post | comentar

Quarta-feira, 11.02.15

A interpelação é ao governo, nos partidos que o compõem, mais um ou outro ente que o suporte, e tal interpelação é feita não por compaixão pela personagem, mas antes pela função e cargo que ocupa. Está no limite do admissível a um Presidente da República desde o início do mandato, melhor, desde o discurso profundamente vingativo que realizou em reação à sua vitória nas últimas eleições presidenciais. Tanto no respeito às suas obrigações constitucionais da arquitetura institucional do Estado Português; quanto à transparência na relação institucional entre o Presidente da República com o Governo, em diplomas de promulgação rápida, quando o que se exige é ponderação e transparência; quanto ao distanciamento necessário no relacionamento político entre governo e oposição; quanto à forma como se envolve em casos como o BES, tentando mais tarde desresponsabilizar-se; quanto à proteção dos seus aliados políticos, em relações de estranha cumplicidade, em todos estes aspetos e no exercício do cargo, Cavaco Silva, desmereceu o respeito e diminuiu a instituição Presidência da República.

Hoje, tratou de dar mais um exemplo da sua proverbial insensatez, da sua ignorância que desconhece o sentido de solidariedade, referiu-se a um outro Estado aliado, a Grécia, parceiro na União Europeia, como se referisse a algum inimigo pessoal. Referiu-se à figura da renegociação da dívida como "a coisa", fazendo lembrar o diácono Remédios na sua dificuldade em pronunciar os comunistas. No fundo, na sua introspeção individual debate-se certamente com todos os dilemas que a função de Presidente da República colocaria, não conseguindo no fim de contas, sair de si, tal como o "Pobre Tolo", personagem de Teixeira de Pascoaes.

Hoje, nas declarações de Cavaco Silva, hoje quando muito se joga sobre o futuro da Europa, da sua prosperidade e do seu progresso, bem como da sua paz, este personagem durável, mas menor na história de Portugal, incapaz sequer de representar a sua geração ou o seu tempo, demonstrou uma vez mais o papel em que está confiado: o de oficial do Governo. Mais, o paralelo que representa encontra apenas semelhança com a organização do Estado na ditadura de Salazar e Caetano, quando o Presidente estava dependente do Conselho de Ministros. Ajudem-no a terminar as suas funções com dignidade.

Por fim, resta-me uma última preocupação: a escolha do próximo Presidente da República. Escolha no duplo sentido da escolha pelos portugueses, e antes dessa, da escolha individual ou partidária de quem pretender propor-se a eleições. Preocupam-me alguns dos nomes que vão surgindo, o seu hipotético apoio partidário, pela necessidade imperiosa de recolocar a instituição Presidência da República no importante lugar que deveria ocupar.

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publicado por Gabriel Carvalho às 20:46 | link do post | comentar

 

O actual confronto na Europa era inevitável. Um projecto económico que falhou e perde todos os dias a sua credibilidade intelectual (até o Vítor Bento já percebeu que estava errado), o da austeridade, teria, mais cedo ou mais tarde, de ser confrontado com uma alternativa. É nesse contexto que surge o desafio do SYRIZA ao establishment político e institucional Europeu liderado pela Alemanha.

 

KAL's cartoon - Jan 31st 2015 | The Economist

 KAL's cartoon - Jan 31st 2015 | The Economist

 

A alternativa económica do SYRIZA não é, por muito que a comunicação social o tente impingir (e a Portuguesa tem sido especialmente insistente nessa matéria), de extrema-esquerda nem particularmente radical.

Não se vislumbra nas propostas do SYRIZA uma reconfiguração da propriedade dos meios de produção, uma alteração significativa da distribuição da riqueza ou uma profunda alteração do papel do Estado; não são sequer conhecidas propostas de nacionalização de importantes sectores da economia. Assim, escapa-me por completo como pode o projecto político que preconiza ser apresentado como de extrema-o-que-quer-que-seja ou radical. Longe de promover uma transformação socialista da sociedade, o SYRIZA apresenta-se com um projecto social-democrata, e até nem muito, para resolver a situação calamitosa a que a austeridade conduziu a Grécia, ao bom velho estilo da esquerda Europeia antes de ser tomada de assalto pela terceira via. Tão evidente é este facto que o próprio Partido Comunista Grego apelida, provavelmente com razão, o SYRIZA de social-democrata, esperemos que na versão séria.

A vontade transformadora que a direita neoliberal imprimiu às sociedades europeias com os programas de austeridade é muito mais radical na transformação que opera na matriz do estado Social Europeu tradicional do que as propostas do SYRIZA, que se limitam a querer mantê-lo.

 

O Radicalismo está, portanto, do lado dos ortodoxos da austeridade, com a Alemanha à cabeça e fortes apoios nos governos que abraçaram a austeridade como programa político em Espanha e Portugal. São radicais nos objectivos e nos métodos, pois entendem que as escolhas democráticas dos eleitores só devem ser mantidas se se conformarem com as premissas da doutrina que pretendem impor à Europa, se assim não for devem ser sacrificados todos os compromissos eleitorais no altar da austeridade. Os radicais não aceitam negociar, insistem na via única da austeridade mesmo quando ela claramente falhou, e em nenhum lado isso é mais claro que na Grécia, insistem até quando os seus próprios argumentos são expostos como falsos (sim, parece que não é verdade que um incumprimento da dívida dificulte o acesso aos mercados). O extremismo da posição dos defensores da austeridade a todo o custo é tão evidente que a própria Comissão Europeia, o BCE e diversos governos, incluindo os EUA, advertem repetidamente para a necessidade de entendimento, mostrando-se muito mais moderados que Merkel e Schauble.

Em Portugal o radicalismo perante as propostas Gregas não é menor. Durante os últimos quatro anos, em Portugal e na Europa, têm-nos dito vezes sem conta que não há alternativa, mas também que um país pequeno como Portugal não poderia nunca fazer valer uma posição alternativa na Europa. O que é que acontecerá à retórica da direita, e ao seu programa político, se for demonstrado que afinal há alternativa e que afinal um país pequeno pode fazer valer a sua voz na Europa? O que será do discurso de Passos Coelho e Paulo Portas sobre o irrealismo de uma negociação há muito necessária? O medo deste cenário é seguramente uma explicação para o radicalismo da Alemanha, expectavelmente acompanhada na sua intransigência pelo Governo Português.

O assustador é que estes radicais, disponíveis a tudo para salvar a sua doutrina, preparam-se agora para, perante a recusa do Governo Grego em renegar as suas promessas eleitorais (supremo desplante!), se disponibilizarem a sacrificar a estabilidade, talvez até a continuidade, da Zona Euro e do próprio projecto Europeu. Tudo para garantir que ninguém nunca mais se desvia do caminho único que defendem. Mas alguém acha mesmo que os povos da Europa se resignarão a empobrecer ainda mais durante anos sem, falhando tudo o resto, acabarem por saltar para os braços da extrema-direita (essa sim extremista)?

 

Não deixa de ser irónico que sejam os herdeiros políticos dos Marxistas a tentar aplicar hoje o programa económico que já no século passado salvou o Capitalismo e sejam hoje os herdeiros dos que criaram o Estado Social Europeu, ou parte deles, os radicais que empurram a Europa para os braços dos extremismos. Talvez não seja assim tão irónico, Marx também defendia que a história se repete, “a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”.



publicado por Gonçalo Clemente Silva às 00:00 | link do post | comentar

Quarta-feira, 07.01.15

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Nós somos Charlie, contra a tirania de qualquer rosto, contra o autoritarismo, contra o totalitarismo; contra o fundamentalismo, venha de onde e de quem vier; somos pela liberdade de expressão; somos pela liberdade; estamos contra o medo e o terror; lutamos por uma sociedade coesa e justa, da igualdade e da fraternidade. Lutamos em conjunto. Vemos que existem causas, lutemos por elas. Je suis Charlie. Nous sommes Charlie!



publicado por Gabriel Carvalho às 17:52 | link do post | comentar

Segunda-feira, 22.12.14

 

No século XX, o Capitalismo não venceu a disputa com o ‘socialismo realmente existente’ pela sua maior capacidade de gerar riqueza, mas sim por se ter imposto como o modelo económico que promovia a democracia, os direitos humanos e as liberdades cívicas e políticas dos cidadãos (o facto de o capitalismo que venceu essa batalha ser o do Estado Social e não o da desregulação que hoje domina merece ser referido).

Depois dessa vitória, já no final do século, a globalização desreguladora do comércio internacional (e liberalizadora dos movimentos de capitais) foi defendida como a melhor forma de trazer a democracia e os direitos humanos aos regimes autoritários dos países menos desenvolvidos, de que o melhor exemplo foi o caso da China.

Mais genericamente, desde a década de 70 até hoje, o Capitalismo, o mais desregulado possível, é defendido como o sistema económico desejável por promover as maiores liberdades dos indivíduos. É esse o argumento moral invocado do Capitalismo, principalmente agora que os supostos benefícios económicos do Capitalismo, depois da brutal crise económica que criou, foram trocados, enquanto argumento, pela simples chantagem dos mercados, que, convenhamos, é um argumento substancialmente menos motivador.

 

Deputados espanhóis da Esquerda Unida no momento da votação da polémica 'Lei Mordaça"

 

Acontece que, apesar de os neoliberais nunca deixarem os factos estragarem os mitos da sua argumentação, nenhuma destas teses tem sobrevivido ao teste da realidade.

Ainda estamos todos à espera (e, temo bem, assim continuaremos) que a globalização que os neoliberais construíram traga a prometida democratização do mundo não democrático e, no que toca ao mundo democrático, os resultados prometidos também continuam ilusórios, parecendo mesmo que o ‘efeito de contágio’ é o inverso do prometido, piorando, isso sim, a qualidade das democracias existentes.

O Capitalismo Neoliberal, quando confrontado com os problemas que ele próprio criou, como a presente crise, prefere sempre sacrificar a qualidade da Democracia e das liberdades individuais a pôr em causa o dogma económico vigente.

São vários os casos que o confirmam. A Espanha, ainda no passado dia 11, nos deu mais um exemplo. Confrontados com uma feroz insatisfação social contra o estado a que o neoliberalismo votou a sociedade espanhola, os neoliberais respondem limitando as mesmas liberdades individuais que usam para promover as suas ideias. Não é caso único, tem-se verificado por todo o mundo ocidental. Na Hungria, as instituições internacionais, incluindo as europeias que tão rápidas são a ameaçar com consequências os países economicamente indisciplinados, como se se tem verificado em relação à Grécia, pouco mais fazem do que emitir umas palavras de circunstância sobre os inúmeros ataques da direita Húngara, no governo, ao Estado de Direito e à separação de poderes.

 

Durante quanto mais tempo aceitaremos as falácias sobre o capitalismo neoliberal servir para promover as liberdades dos Cidadãos? Quanto mais tempo ignoraremos as evidências de o Capitalismo desregulado, ao invés de promover as Democracias Liberais, ser, a prazo, incompatível com elas?



publicado por Gonçalo Clemente Silva às 00:07 | link do post | comentar

Terça-feira, 18.11.14

 

 

 

A desculpa é sempre a mesma, por estes dias aplicada à TAP. As regras comunitárias (quando não são outras quaisquer) impedem o estado de injectar o muito necessário capital nesta, como noutras, empresa pública, o que é verdade. Assim sendo, o estado justifica a alienação da TAP como uma inevitabilidade das regras europeias.

O problema é mesmo que tudo isto nos é apresentado como facto consumado. As regras europeias não surgem do ar, foram discutidas, negociadas e aprovadas, também com intervenção portuguesa, ou de portugueses, nesse processo. Mas, ignorando tudo isto, ignorando que as regras têm uma origem, objectivos e, acima de tudo, uma base ideológica quando são criadas, são-nos apresentadas como inevitabilidades imanentes que decorrem, tal como o poder régio absoluto do antigo regime, de uma espécie de emanação divida.

 

A propósito disso, e da importância da intervenção portuguesa, alguns de nós (poucos, infelizmente) assistem hoje a mais um desses processos negociais. Agora é a vez do TTIP, o tratado de comércio euro-americano que promete mais desregulação e liberalização externa e, seguramente, interna. Este é um excelente exemplo, porque nelee se vê que Portugal nunca deixou de influenciar estas decisões, só afirma que lhe falta esse poder quando quer justificar falta de vontade. Aliás, neste processo, até temos o exemplo de um valente bater de pé do governo (verbalizado pelo seu mais radical ideólogo) à Comissão Europeia e até à própria Alemanha, que está, neste caso, como resultado não intencional de defender o seu próprio interesse, a defender mais o interesse de Portugal que o nosso próprio governo.

 

Assim, perante a passividade geral, o governo continua a fazer de conta que é obrigado pelas regras actuais a avançar com aquilo que de facto quer fazer, ao mesmo tempo que negoceia as novas regras que no futuro usará para justificar novas vagas de políticas neoliberais, apresentando-as então como imposições externas que nada têm que ver com eles.

Foi assim com as regras do euro, com as regras do mercado único, com as regras que impedem o estado de capitalizar a TAP e com muitas outras. Enquanto assim for, e nisso acreditarem as pessoas, haverá poucas possibilidades de alterar o que quer que seja. Mas aparentemente ninguém liga: ‘no pasa nada’…



publicado por Gonçalo Clemente Silva às 11:31 | link do post | comentar

Terça-feira, 28.10.14

 

 

Não acredito em deuses, acho que nunca vou acreditar, e, sobretudo, não acredito num deus pessoal, antropomórfico, como o que nos é o proposto pelos católicos. Além disto, a história da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) de conservadorismo social, intolerância e aversão à ciência, tendo estado quase sempre política, filosófica e cientificamente do lado errado de todas as batalhas pelo progresso (e pela defesa dos mais fracos, que deveria proteger), fazem com que tenha sido sempre muito céptico em relação a toda a aparente abertura do novo Papa.

 

Hoje, acho que fui finalmente convencido. Não, não tive uma revelação, nem passei a acreditar num deus, mas acho efectivamente que este Papa é capaz de estar do lado certo da história. Hoje, o Papa retirou a Igreja de onde nunca devia ter entrado, recusou o literalismo bíblico, rejeitando que um livro com quatro mil anos deva servir como interpretação literal do mundo natural, afirmando que Deus não é “um mágico com uma varinha de condão” e que a Igreja não deve rejeitar a Teoria da Evolução ou a do Big Bang. Acabou com a margem para a tolerância das “pseudo-teorias” do criacionismo ou do ‘design inteligente’.

 

Depois da abertura em relação aos homossexuais e aos tipos não tradicionais de família, bem como de um retomar efectivo das preocupações sociais – verdadeiramente sociais, que passam pelos direitos das pessoas e não pelo assistencialismo controlador (que tanto tem sido a tradição) – pela ICAR no consulado de Francisco, a aceitação da supremacia da ciência, no que ao mundo natural diz respeito, retira a Igreja, pela primeira vez, do pensamento medieval que a tem caracterizado.

A escolha de uma interpretação simbólica, talvez mais profunda, para a Bíblia centra a Igreja na sua função de instituição que visa a consumação dos fiéis com a sua fé, e a essa, por não ter que ver comigo, eu não tenho nada a objectar.

 

Francisco, enquanto Bispo de Roma, sucessor de Pedro, talvez seja um herdeiro (pela primeira vez?) à altura do antecessor de Pedro, seguindo o seu exemplo e, se o conseguir, fazendo uma verdadeira revolução dentro da Igreja. Tal como o antecessor de Pedro, pretende renovar uma religião com mais de dois mil anos de tradições arcaicas, humanizando-a e centrando-a na defesa dos mais frágeis e na sua relação com o seu deus, não pela exclusão, mas pela inclusão.

Se será bem-sucedido, não sei. Não será tarefa fácil e aquele a quem me referia atrás consta que era perfeito e nem assim conseguiu ter grande sucesso na sua época. Mas que promete também ficar para a história, não tenho grandes dúvidas.



publicado por Gonçalo Clemente Silva às 23:42 | link do post | comentar


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