Terça-feira, 28.10.14

 

 

Não acredito em deuses, acho que nunca vou acreditar, e, sobretudo, não acredito num deus pessoal, antropomórfico, como o que nos é o proposto pelos católicos. Além disto, a história da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) de conservadorismo social, intolerância e aversão à ciência, tendo estado quase sempre política, filosófica e cientificamente do lado errado de todas as batalhas pelo progresso (e pela defesa dos mais fracos, que deveria proteger), fazem com que tenha sido sempre muito céptico em relação a toda a aparente abertura do novo Papa.

 

Hoje, acho que fui finalmente convencido. Não, não tive uma revelação, nem passei a acreditar num deus, mas acho efectivamente que este Papa é capaz de estar do lado certo da história. Hoje, o Papa retirou a Igreja de onde nunca devia ter entrado, recusou o literalismo bíblico, rejeitando que um livro com quatro mil anos deva servir como interpretação literal do mundo natural, afirmando que Deus não é “um mágico com uma varinha de condão” e que a Igreja não deve rejeitar a Teoria da Evolução ou a do Big Bang. Acabou com a margem para a tolerância das “pseudo-teorias” do criacionismo ou do ‘design inteligente’.

 

Depois da abertura em relação aos homossexuais e aos tipos não tradicionais de família, bem como de um retomar efectivo das preocupações sociais – verdadeiramente sociais, que passam pelos direitos das pessoas e não pelo assistencialismo controlador (que tanto tem sido a tradição) – pela ICAR no consulado de Francisco, a aceitação da supremacia da ciência, no que ao mundo natural diz respeito, retira a Igreja, pela primeira vez, do pensamento medieval que a tem caracterizado.

A escolha de uma interpretação simbólica, talvez mais profunda, para a Bíblia centra a Igreja na sua função de instituição que visa a consumação dos fiéis com a sua fé, e a essa, por não ter que ver comigo, eu não tenho nada a objectar.

 

Francisco, enquanto Bispo de Roma, sucessor de Pedro, talvez seja um herdeiro (pela primeira vez?) à altura do antecessor de Pedro, seguindo o seu exemplo e, se o conseguir, fazendo uma verdadeira revolução dentro da Igreja. Tal como o antecessor de Pedro, pretende renovar uma religião com mais de dois mil anos de tradições arcaicas, humanizando-a e centrando-a na defesa dos mais frágeis e na sua relação com o seu deus, não pela exclusão, mas pela inclusão.

Se será bem-sucedido, não sei. Não será tarefa fácil e aquele a quem me referia atrás consta que era perfeito e nem assim conseguiu ter grande sucesso na sua época. Mas que promete também ficar para a história, não tenho grandes dúvidas.



publicado por Gonçalo Clemente Silva às 23:42 | link do post | comentar

 

Confesso que gostava que os apoiantes de Seguro defrontassem os apoiantes de Costa em Congresso, devia ser essa a função do Congresso, principalmente tendo em conta que já nem o Secretário-Geral é nele eleito. Não acho desejável que tantos apoiantes de um e outro lado, que durante 4 meses divergiram de forma tão radical e em questões tão fundamentais, não confrontem as suas divergências em Congresso, frente a frente, de forma clara. Não acho desejável, mas acho compreensível.

Não culpo pela ausência desta clarificação os partidários de um ou outro lado, “O homem é ele e a sua circunstância” e, neste caso, parece-me que é sobretudo a circunstância que assim o determina. Essa circunstância foram as eleições Primárias.

 

 

As primárias foram, todos o afirmam, um enorme sucesso. Correram muito bem, demasiado bem, na minha (possivelmente parcial, uma vez que não sou, nem nunca fui, adepto do modelo) opinião.

Correram demasiado bem porque, mesmo que eu tenha querido muito ter Costa na liderança do PS, nunca quis ter Costa, nem ninguém, a liderar o partido com uma legitimidade e, portanto, um poder absoluto, é isso que hoje acontece.

 

O Partido Socialista terá cerca de 100 mil militantes, a avaliar pela história recente do partido, num cenário de disputa eleitoral (o que não será o caso do próximo Congresso), votariam para eleger os delegados ao Congresso Nacional no máximo 40 mil militantes. António Costa foi escolhido numas eleições primárias em que participaram quase 180 mil pessoas, das quais 120 mil deram-lhe a sua confiança. Neste momento e, presume-se, a partir de agora, qualquer líder escolhido em primárias contará sempre com uma muito maior legitimidade política, decorrente de uma maior legitimidade eleitoral, do que o órgão máximo do PS.

 

Agora sim os líderes serão inamovíveis. Qual poderia ser o Congresso, eleito por 30 mil pessoas, que poderia ter força política para eventualmente pôr em causa uma liderança legitimada pela confiança de 120 mil cidadãos?

Com a introdução das eleições directas, os Congressos já viram o seu peso e a sua utilidade substancialmente reduzidos (o que é, na minha opinião, muito negativo, como já expliquei noutro texto). Com a introdução do modelo de primárias, quando ligado umbilicalmente à liderança do partido, que é o caso, os Congressos ficarão definitivamente reduzidos a, utilizando a expressão que uma vez o Pedro Delgado Alves usou para escrever alguns congressos, uma espécie de ‘congrício’: formalmente um congresso, na prática um comício.

 

Assim sendo, os Congressos mais não serão do que um arcaísmo formal, herdado de tempos anteriores, mas já sem grande utilidade. Isto não seria muito mau, mas há outras consequências funestas desta alteração.

 

Desde logo, a questão que eu comecei por colocar sobre a possibilidade de se porem em causa as lideranças, o que já é suficientemente mau, mas não só. Sem disputas em Congresso (e este era um problema que já existia desde a introdução das directas, sendo agora ‘apenas’ agravado), as eleições têm a tendência para se tornarem crescentemente pessoalizadas, desligando-se de uma verdadeira discussão de projectos que, sendo também constituídos por pessoas, não podem nunca ser reduzidos apenas à sua liderança. Não podemos queixar-nos (incluindo aqui toda a comunicação social e os comentadores que tanto o fizeram na campanha para as eleições primárias) da ausência de diferenças programáticas se, pelas próprias regras instituídas, fomentamos um modelo em que se foca a escolha apenas na diferença de personalidades, porque são apenas essas que vão a votos no momento mais importante.

Por último há uma outra desvantagem, que tem também que ver com o universo eleitoral das primárias: o esvaziamento da participação partidária. Se o sistema de eleição se torna mais pessoalizado e nacional, contrariando as dinâmicas de grupo e negociação anteriormente dominantes, ao mesmo tempo que se retira o direito exclusivo de voto aos militantes na escolha da liderança, então, além de se esvaziar o Congresso, esvazia-se por completo, em termos de influência, a militância partidária. Qual será a função real de ser militante partidário no cenário que se desenha é para mim uma completa incógnita, mas, tendo em conta que não há nenhuma Democracia funcional sem partidos e não há partidos sem militantes, é uma incógnita preocupante.

 

Temo bem que as primárias façam escola no nosso sistema político e que isso possa não ter bons resultados, espero estar enganado.



publicado por Gonçalo Clemente Silva às 01:21 | link do post | comentar

Sexta-feira, 17.10.14

 

 

Rui Ramos conseguiu, na sua última crónica no jornal oficial do neoliberalismo, superar-se a si próprio, atingindo um nível de desonestidade intelectual que nem dele eu esperaria.

Nela, critica as declarações, conhecidas esta semana, em que Ferro Rodrigues afirma que “Não se pode, evidentemente, ao mesmo tempo, defender o progresso do Serviço Nacional de Saúde, defender o progresso da escola pública, defender o progresso na capacidade da proteção social e depois ter promessas desbragadas em matéria de diminuição dos impostos”.

Para mim, Socialista que sou, estas afirmações fazem imenso sentido e são uma clarificação importante sobre o caminho que a Esquerda democrática tem de percorrer se quiser verdadeiramente inverter o domínio do neoliberalismo na nossa sociedade. Compreendo que o Rui Ramos, defendendo o que defende, não concorde com isso e acredito que existam argumentos válidos em sua defesa, mas não os que utilizou. Nesses, nem ele acredita.

 

Rui Ramos estabelece uma identidade entre austeridade e a carga fiscal, dizendo depois que “o que Ferro Rodrigues nos quis dizer é isto: ou mantemos a austeridade (o “assalto fiscal ao trabalho”), ou não há Estado social”, ou seja que, para o PS, “o Estado social é a austeridade” (Rui Ramos depois afirma que não tem de ser assim, dando o exemplo do estado social existente durante o tempo de Marcello Caetano, mas deixemos as simpatias dele pelo anterior regime de parte). Numa conversa de café seria admissível ouvir este argumento de um qualquer chico-esperto, mas não de alguém que é historiador e doutorado em Ciência Política, nesse caso é só desonesto.

 

A austeridade não é só aumentos de impostos. A austeridade é a consolidação orçamental que se faz através do aumento da carga fiscal (e há muitas formas de fazer esse aumento, diferentes da que foi seguida) associado a um corte nas funções e na despesa do estado, não esquecendo a componente de compressão salarial (pela via do aumento do desemprego ou das chamadas ‘reformas estruturais’, como são da diminuição dos direitos laborais), indispensável à melhoria da competitividade externa.

Se desconsiderássemos, como faz Rui Ramos, todos os outros factores que referi e entendêssemos que a austeridade significa só aumento de impostos (ou manutenção de impostos altos, que é isso que Rui Ramos lê nas afirmações de Ferro Rodrigues) então a Dinamarca, a Finlândia e a Suécia estariam entre os campeões da austeridade na Europa, com cargas fiscais de 56.3% (do PIB), 56.0% e 51.6%, respectivamente, quando em Portugal ela é de 43.7%.

Eventualmente, Rui Ramos, no seu fervor neoliberal, poderia, não sendo economista, esquecer tais factos. O que é particularmente ridículo é que, sendo historiador, ignore o período que se seguiu à grande depressão nos EUA e à Segunda Guerra Mundial na Europa, em que os governos de esquerda promoveram significativos aumentos de impostos e de despesa pública, não como política de austeridade, o que é evidente para qualquer pessoa séria, mas exactamente para combater os efeitos das crises económicas e das políticas de austeridade que lhes antecederam.

 

Não vou sequer, porque não vale a pena, alongar-me sobre o facto de a mesma pessoa que acha que “Quando comparamos a ditadura salazarista com as suas contemporâneas, a contabilidade repressiva é modesta” poder afirmar que para os outros, supõe-se pelo contexto que seja Ferro Rodrigues e o PS, “o Estado social vale sobretudo como um instrumento do domínio da sociedade pela oligarquia política”; já estamos habituados a estes devaneios do historiador oficial da direita liberal na economia e conservadora na democracia. O que tem de se referir é que, vindo de alguém com o currículo e o percurso de Rui Ramos, nada disto é inocente, é uma tentativa consciente de enganar as pessoas com recurso retórica elaborada e a uma suposta reputação ‘académica’.

O que é efectivamente grave é que continue a ser dada credibilidade a gente que demonstra tamanha falta de honestidade intelectual, estando disposta a tudo, mesmo a enganar deliberadamente os outros, para fazer avançar as suas opiniões políticas.



publicado por Gonçalo Clemente Silva às 01:47 | link do post | comentar

Segunda-feira, 06.10.14

"18.

Sim, foi essa

A primeira miséria, a deserção

Dos deuses. A segunda, a sua morte,

Já na morte de Pã anunciada

Pelo lamento dos bosques, o clamor

Lutuoso das Ilhas do Egeu.

Esse grito o escutou o outro Friedrich,

Dionysos de seu nome, o europeu,

O anunciador, o que caminha

Sobre águas estagnadas e parece,

Ao afundar-se, desenhar no lodo

Um mapa para o qual não há leitura.

 

19.

A segunda miséria: não a morte

Do deus crepuscular, do invasor

Que proibiu a imaginação

E tirou à tragédia dignidade -

Pois muito longe de morrer está esse.

A morte, uma falência quotidiana

Da limpidez, da arte e da divina

Coloquialidade com o mistério

E com o semelhante, a que extinguiu,

Como um sopro de fogo na planície,

Ao mesmo tempo o vivo e o seu rasto.

 

20.

E veio outra miséria, em interlúdio:

A miséria da interpretação

Que tudo trai. Os textos, os tão belos

Textos do ódio e da melancolia

Carragavam os sacos dos soldados

Como pães doces, abolorecidos,

Alimentavam quem? Persas, de novo.

Persas vindos do Norte, equivocados

Com o som do poema, com a ira

Formosa do poema.

 

23.

A terceira miséria é esta, a de hoje.

A de quem já não ouve nem pergunta.

A de quem não recorda. E, ao contrário

Do orgulhoso Péricles, se torna

Num entre os mais, num entre os que se entregam,

Nos que vão misturar-se como um líquido

Num líquido maior, perdida a forma,

Desfeita em pó a estátua."

 

In 'A Terceira Miséria', de Hélia Correia



publicado por Rui Moreira às 22:53 | link do post | comentar

Domingo, 05.10.14

Vivo constantemente com a sensação de que é sempre possível viver num melhor e mais perfeito Estado democrático, numa melhor e mais perfeita república, aliás, julgo que o republicanismo também implica essa inconformidade, esse incomodo, essa busca, e portanto, nada melhor do que evocar o lamentável Presidente da República que temos, e ainda mais, os aspetos que me levam ao incomodo, à inconformidade, e a vontade que desapareça do lugar que ocupa, para novamente escolhermos. Considero que o atual ocupante do Palácio de Belém é uma degenerescência do regime democrático, no seu caráter de imperfeição - como diria Churchill -, isto apesar de resultar da escolha popular democrática. Alguém que teima em considerar-se a si e aos seus acima dos cargos que ocupam, e de afirmar tacitamente que chegou ontem, não serve a República e está longe de a considerar. Que desocupe o lugar é o meu desejo para este dia de aniversário da República.

Eça faria dele uma personagem menor nos seus romances, e a caricatura de uma certa classe do país, Bordalo Pinheiro poria a arte das Caldas e a imagética caricaturista no bom ofício da crítica social. Nem precisaríamos de um qualquer artista de Barcelos, que em vez de se ocupar de galos em barro, contribui, provavelmente por desconhecimento e falta de informação, para a promoção de quase 50 anos de um tempo que nunca pertenceu à República! Viva a República!



publicado por Gabriel Carvalho às 15:03 | link do post | comentar

Terça-feira, 30.09.14

Antes de António Costa aproveitar a enorme falta de bom-senso de António José Seguro na noite eleitoral das eleições europeias, o PS tinha uma tarefa decisiva no horizonte – governar de modo substantivamente diferente do actual governo. Essa seria a razão principal pela qual o PS (e consequentemente António José Seguro) muito provavelmente teriam ganho as eleições legislativas em 2015. A tarefa de governar de modo verdadeiramente alternativo ao actual governo não seria nada fácil face a todos os condicionalismos existentes mas seria absolutamente crucial. Em caso de insucesso, não seria difícil antever a transformação de um eleitorado desconfiado num eleitorado descrente em qualquer solução política para a crise, com consequências imprevisíveis no sistema partidário e na qualidade da nossa Democracia, o que apenas contribuiria para agravar as duras condições de vida da maioria dos portugueses.

 

Essa tarefa árdua ficaria necessariamente comprometida à partida no caso de coligação com o PSD. Nesse sentido, António Costa permitiu manter a esperança que o PS cumpra o seu papel. Mas não fez (nem poderia fazer) mais do que isso porque, ao contrário do que muitos dos seus apoiantes acreditam ferozmente, a chegada do PS ao poder não é um fim mas um meio. Ou seja, mesmo que obtenha maioria absoluta, essa vitória apenas será, tal como a vitória nas primárias, um meio de Costa cumprir a tarefa que antes aguardava Seguro – governar de modo diferente deste governo no conteúdo e na forma.

 

Noutras circunstâncias esta diferença esbater-se-ia mas nos dias que correm ela será fundamental. Tal como as regras costumeiras de chegada ao poder num partido político não se aplicaram a Seguro, as regras costumeiras da alternância “light” dificilmente continuarão a ser aceites pelos portugueses. Não sei se António Costa tem a percepção da importância de não falhar no governo mas convém que comece a pensar muito seriamente numa estratégia para isso não acontecer. Escrevo “pensar” propositadamente pois mais importante que comunicar eficazmente essa estratégia, algo que a maioria dos comentadores considera a principal tarefa de Costa nos próximos tempos, é construí-la sistemática e globalmente. Para depois a comunicar sectorialmente.  

 

Uma estratégia deste tipo tem de ser (no mínimo) inventiva para permitir controlar algumas condicionantes e demonstrar que um governo não é apenas um grupo de funcionários bem-intencionados que lidam com as circunstâncias. Um dos problemas estruturais desta crise é o cerco à Política feito pela narrativa da ausência de alternativa realista, atirando-a para um reduto de mera decisão (inevitável). Ora a Política tem de transformar, tem de ter capacidade de moldar ou romper as condicionantes, pelo que um governo tem, para além de lidar com as circunstâncias, de ter a capacidade de criar novas circunstâncias.

 

Resumindo, se Costa perceber tarde o que está verdadeiramente em causa… pode ser tarde de mais. Mas mesmo depois de perceber, resta a verdadeira prova da governação. Até lá, resta apenas a esperança.

 

Joos de Momper, Tobias' Journey (séc. XVII)


publicado por Pedro Silveira às 21:37 | link do post | comentar

Sexta-feira, 26.09.14

 

Nos textos anteriores (aqui, aqui e aqui) já abordei as razões que, ao longo dos últimos anos, conduziram à crise no PS, que já existia e da qual a candidatura de Costa é apenas a solução encontrada para a resolver. Não posso, no entanto, fechar este ‘ciclo’ de textos sem abordar a causa próxima do surgimento desta crise, principalmente para desmentir a narrativa que Seguro tem construído ao longo dos últimos meses sobre a crise no PS.

 

Acima de tudo, e para que fique claro, é importante desmentir o argumento de que a crise foi criada por Costa e que o PS estava bem depois das eleições europeias, sem que houvesse razão para Costa avançar. Acontece (feliz coincidência imagino) que vivemos na era da informação e isso, por si só, permite-nos, sem grande esforço, pôr a nu todo o problema que se criou com o resultado pífio do PS nas europeias. As reacções pela parte da maioria aos resultados eleitorais estavam em todos os jornais, de forma completamente descarada, como no caso do Expresso, sob o título ‘PSD e CDS fazem figas por Seguro’:

«"Grande vitória de António José Seguro, foi uma grande vitória do líder socialista", era a mensagem repetida à exaustão. No dia em que a coligação voltou a acreditar que pode ganhar 2015, manter o atual líder socialista passou a ser ainda mais vital para que a equação funcione.»

Ou ainda, no caso do Público, sob o título ‘Resultados das europeias dão alento à maioria e reforçam coligação pré-legislativas’:

«Os poucos pontos de distância que separaram o PS do PSD/CDS nestas europeias deram uma nova esperança à coligação de poder ganhar as próximas legislativas.»

 

Seguro pode arranjar as justificações que entender, pode argumentar até à exaustão com o ‘comparativamente’ bom resultado dos Socialistas em Portugal, mas há coisas indesmentíveis. Uma delas é o mau resultado do PS nas eleições europeias, evidente ao ponto do PS ser enxovalhado em público com estas notícias sobre a vontade da maioria ‘segurar’ (passe a repetição) o líder do PS, para que tivesse hipótese de ganhar em 2015.

Não foi só a ‘oposição interna’ que achou o resultado mau, aliás os únicos que acompanham Seguro ao ver com bons olhos o resultado do PS são mesmo os partidos da maioria.

 

Sejamos claros, nem sequer foram os resultados eleitorais que criaram a crise no PS, quem criou a crise no PS foi Seguro e o seu péssimo mandato enquanto Secretário-Geral. Os resultados das europeias meramente puseram ‘às claras’ aquilo que muitos de nós já tinham visto. Depois disso a campanha de Seguro (que em nome da elevação me abstenho de aqui qualificar), os truques de secretaria e todas as manobras que foram feitas apenas reforçam a urgência daquilo que tinha sido claro e motivam o pedido que Costa fez ontem e hoje: tem de haver resultado claro de rejeição, já não só destes últimos três anos, mas de toda esta forma de estar na política.

 

Juntando tudo isto à esperança que Costa devolve ao PS, encontra-se a razão pela qual o voto na candidatura de Costa não é só uma boa aposta, é uma necessidade. Costa trouxe de novo ao PS ambição e vontade, mas trouxe de volta ao PS uma grande parte do PS. Não me refiro à malta do Sócrates, refiro-me a uma boa parte do PS que nem sequer apoiou Sócrates.

Para mim que sou daquilo que se chama ‘ala Esquerda’, mas que pode bem melhor ser descrito como a ala Sampaísta-Ferrista do PS (de onde Costa também provém, ao contrário de Sócrates e Seguro), Costa traz de novo todos nós, não para o PS de onde nunca saímos, mas para uma participação cheia de energia e esperança que (pelo menos eu) já não se sentia desde 2004. Não é por acaso que tantos dos maiores vultos do PS apoiam Costa (desde Soares, aos próprios Sampaio e Ferro Rodrigues).

Mas Costa traz mais, com ele vem toda uma nova geração empenhada em mudar a política a economia e a sociedade, juntando o idealismo, que tanto tem faltado, à qualidade política.

Por tudo isto o Duarte Cordeiro teve toda a razão em afirmar, ontem na Aula Magna: "Estas eleições não são só as eleições de António Costa, são as nossas eleições"

 

Domingo, vamos ganhar o PS, recuperar a confiança dos Portugueses e mudar a política.

 

 



publicado por Gonçalo Clemente Silva às 23:42 | link do post | comentar

 

 

António José Seguro nunca me conseguiu propriamente iludir muito, mas conseguiu desiludir-me. Nunca esperei que o seu mandato fosse tão mau como efectivamente foi, principalmente do ponto de vista ideológico.

Os resultados que, apesar das afirmações autistas de Seguro, estão longe de ser bons poderiam ser desculpados se fossem a consequência do assumir de uma postura mais diferenciadora entre o PS e o consenso dominante, que é de direita (muito por culpa de Seguro não ter efectivamente combatido as teses da direita sobre a origem da crise). Se o PS tivesse ousado, virando à esquerda, fazer as rupturas essenciais para superarmos a actual crise, que é muito mais que económica, faria sentido esperarmos uma maior dificuldade em motivar a adesão às nossas propostas. Mas não foi isso que aconteceu. Seguro acabou por sofrer do mal oposto, indiferenciou-se de tal forma da direita que, nunca pondo em causa os seus argumentos, acabou derrotado por não conseguir, com credibilidade, competir nos seus argumentos.

 

Costa afirma frequentemente que o momento definidor foi a abstenção no Orçamento do Estado para 2012. Discordo, acho que o momento definidor foi ainda anterior e, talvez, só visível em retrospectiva. Seguro, como eu já disse, teria tido em 2011 a oportunidade de se distanciar de Sócrates (que veio da ‘ala direita’ do partido), distanciando-se do memorando que, como refere incessantemente, não assinou.

Mas não, Seguro optando por se distanciar da governação de Sócrates, nunca se distanciou da solução negociada com a troika, muito fruto, não propriamente da vontade de Sócrates, mas da imposição de Bruxelas. Não deixa aliás de ser estranho que a única ‘herança’ de Sócrates que Seguro assumiu na plenitude tenha sido o memorando de entendimento com a troika.

Muitos dirão que Seguro o fez para, motivado pela rivalidade com Sócrates, atirar as culpas da crise para este, podendo aparecer como salvador e herói do partido. Não acho que tenha sido isso, seguramente não foi só isso, apesar da tentação de interpretar os seus recentes comportamentos nessa luz. Foi, na minha opinião, por uma razão diferente: Seguro, mas principalmente os seus ideólogos (João Ribeiro, Eurico Dias, Álvaro Beleza, ou outros, como Vítor Bento, que Seguro convidou para participar no Novo Rumo), acreditavam efectivamente que a solução apresentada pela direita com a desculpa da Troika para os nossos problemas era o caminho a seguir.

 

A abstenção ‘violenta’ (com murros na mesa, presume-se, mas só dentro do partido – e de preferência contra a oposição interna - que lá fora temos de nos portar bem para os mercados não ficarem incomodados) no Orçamento do estado para 2012 mais não foi, então, do que a materialização da vontade Segurista de construir uma alternativa política ‘credível’ perante a Europa e os mercados ou, o que é o mesmo, indistinguível da direita nas grandes orientações de política económica, apenas com uma maior consciência social. Convenhamos que, comparando com a actual direita que nos governa, seria difícil não demonstrar maior consciência social.

 

Podem achar que estou a ser injusto, mas as demonstrações efectivas do pendor centrista, para não lhe chamar direitista, da liderança de Seguro são por demais evidentes. Além da abstenção ‘violenta’ (que, até hoje, ninguém conseguiu distinguir das suas congéneres mais pacíficas) há vários exemplos, facilmente comprováveis desta orientação política global, ainda que, por vezes, mascarada por algumas propostas avulsas de pendor contrário que, ainda assim, não alterariam a orientação política global.

Seguro opôs-se a que um grupo de 17 deputados do PS (todos da tal oposição interna cheia de malfeitores) que pediu a fiscalização da constitucionalidade do Orçamento do estado de 2012. Seguro, depois da enorme vitória política e benefício objectivo para os portugueses, cavalgou na onda e aderiu a todos os subsequentes pedidos de fiscalização de constitucionalidade, chegando mesmo a classificar as decisões deles resultantes de “boas notícias” e que "o PS cumpriu o seu dever na defesa dos portugueses". Boas notícias essas que nunca teriam existido por sua vontade: existiram apesar dele e por vontade da ‘oposição interna’. Por vontade de seguro o PS não “cumpriria o seu dever na defesa dos portugueses”.

Mas há outros indícios desta identificação de seguro com as teses da direita. Mas houve muitos mais indícios de uma adesão da direcção nacional do PS às teses da direita sobre o caminho da direita para resolver a crise.

O PS votou favoravelmente à alteração do código do trabalho de 2012, juntando-se à cumplicidade da UGT com a redução dos direitos laborais. Mais uma vez, apenas alguns deputados da ‘oposição interna’ assumiram como seu o papel histórico dos Socialistas na defesa dos direitos laborais, conquistados à custa do suor de muitas gerações anteriores de Socialistas.

O PS votou favoravelmente a aprovação do Tratado Orçamental que agora, em campanha eleitoral interna, afirma querer ver alterado. Aliás, não só a direcção do PS afirmou o seu apoio na altura, como impôs disciplina de voto nessa matéria, obrigando todos os deputados do PS a votar favoravelmente. Mais uma vez as únicas vozes críticas fizeram-se ouvir da parte da tal ‘oposição interna’.

Para não me eternizar com todos os momentos em que a direcção nacional de seguro provou ser a mais à direita da história do PS, algo que eu ingenuamente julgava impossível depois de Sócrates, avanço apenas com mais um exemplo: o voto favorável do PS à ‘reforma’ do IRC. Como pode alguém que se afirma Socialista defender que, no período de maior aumento de impostos sobre os rendimentos do trabalho, de maiores cortes nas pensões, nos apoios sociais e nos vencimentos, se proceda a uma reforma que vise diminuir os impostos pagos pelas empresas? Este é talvez o mais revelador de todos.

A actual direcção nacional do PS assumiu como seus os dogmas neoliberais que defendem que toda a primazia deve ser dada à promoção das regalias ao capital e que só dessa forma se pode atingir o crescimento. Parece aceitar que os direitos laborais e sociais são um luxo, para quando se pode, e uma redistribuição efectiva de rendimento, que alivie a desigualdade, uma perigosa ideia radical. Isto não é o PS, isto não é Socialismo, isto quase já nem é uma política económica racional.

 

Assim, Seguro afirmou-se como a alternativa interna a Sócrates à sua direita e não à sua esquerda, como durante anos tentara fazer entender. Para quem, como eu, pertence, orgulhosamente, à ala mais à esquerda dentro do PS e já não se revia plenamente na corrente ideológica que José Sócrates defendia, este facto é efectivamente preocupante.

 

Dir-me-ão, com alguma razão, que Costa não é propriamente um corte radical com a política económica centrista que tem dominado, infelizmente, os partidos Socialistas nas últimas duas décadas. Têm razão, mas perante esta direcção nacional até Sócrates parece esquerdista.

Além disso nem só das perspectivas dos líderes vive um partido. Seguro deve muitas das suas posições àqueles 8que já atrás referi) que com ele trabalham nas áreas do Estado, da economia e das finanças, o mesmo acontece com Costa. Onde Seguro apresenta Óscar Gaspar, Eurico Dias, João Ribeiro e Álvaro Beleza, Costa apresenta Pedro Nuno Santos, Pedro Delgado Alves, João Galamba e Pedro Marques. Outros exemplos poderiam ser dados. Com Costa chegarão à liderança do PS, e depois do Governo, todos aqueles que ao longo destes três anos têm feito a verdadeira defesa dos valores do PS e dos direitos dos Cidadãos, aqueles que têm feito a verdadeira oposição à política da actual maioria.

Não garanto que Costa faça imediatamente o corte que é preciso fazer com o pensamento económico dominante, que nos conduziu à actual crise, mas sei que há pelo menos essa abertura e que muita gente que está com Costa são aqueles (porventura os únicos) que podem fazer essa mudança no PS. Só isso já é uma aposta que vale a pena fazer. Só isso já é uma esperança que vejo renascer. Só isso já é uma razão para acreditar e apoiar a candidatura de António Costa.

 



publicado por Gonçalo Clemente Silva às 22:43 | link do post | comentar

 

Ao contrário de muitos, sempre reconheci a Seguro uma enorme capacidade política. Recordo-me perfeitamente de o ver em 2004, no arranque da campanha para as Europeias que o PS venceria com 44%, a arrebatar toda uma audiência com um discurso mobilizador. Não me surpreende, por isso, ver o Seguro que tenho visto nos últimos dois meses, em campanha interna. Surpreendeu-me sim ver um Seguro completamente diferente durante três anos à frente do PS.

 

Já me têm dito, desde o início da campanha interna, coisas como “picaram-no, agora aguentem-se”; caramba, então é preciso ameaçarem-lhe o lugar que considerava garantido para que ele ganhe vida? A defesa dos valores do PS, a oposição a esta política, a defesa dos direitos sociais e da vida dos Cidadãos da República não é motivação suficiente?

Afrontaram-no e isso irritou-o, compreendo. Mas os cortes de salários não o irritaram? O desemprego não o irritou? O ataque à escola pública, à segurança social e ao SNS não o irritaram? Qual é efectivamente o seu objectivo, mudar o país, derrotar esta política, ou ‘apenas’ ser Primeiro-Ministro?

Não consigo compreender um líder político que é mais duro, mais agressivo, contra a sua oposição interna (que é legítima num partido democrático, porque, apesar de agora não podermos destituir o líder do PS, isto ainda não é o PCP nem a Coreia do Norte) do que é contra aqueles que, supõe-se, estão a impor ao país uma política com a qual discorda. Não aceito um Secretário-Geral que se insurgiu mais violentamente contra os supostos ‘interesses’ existentes no PS do que contra todos os negócios opacos de Miguel Relvas, Dias Loureiro e tantos outros. Não é só, não pode ser, porque Miguel Relvas seja um amigo de largos anos e Costa um adversário de sempre.

 

Seguro defende que se anulou para assegurar a paz interna. Mas, se a sua suposta oposição interna é a que sempre reclamou uma atitude mais agressiva para com o Governo, como pode isso justificar tanta passividade? Na minha opinião, uma das razões fundamentais é que Seguro esperava que isto fosse um passeio. Habituado desde sempre a gerir a sua carreira nos cânones habituais da política lusitana, Seguro esperava que o poder lhe caísse ao colo sem grande esforço e sem grandes compromissos, ignorando que isto não é uma carreira e os tempos que correm são tempos de audácia, de convicções e de luta.

 

Mas há mais uma coisa que seguro diz, e essa eu também acho que foi uma razão fundamental: Seguro entendeu que tinha de fazer uma oposição ‘responsável’. Na procura dessa responsabilidade, Seguro abdicou de pôr em causa (ou então nunca sequer quis) todo o consenso neoliberal existente em Portugal e na Europa, impedindo qualquer efectiva distinção de fundo entre o PS e a direita. Para mim esse é o seu fundamental problema e, por essa razão, ele contaria sempre com a minha oposição interna, ainda que os resultados eleitorais fossem bons, que não foram. Sobre a posição ideológica de Seguro, e a minha oposição a ela, conto escrever ainda até amanhã. Mas há uma coisa que tenho de referir agora: a ânsia de Seguro se distanciar de Sócrates.

A imagem pública de José Sócrates, depois de sair do governo e tendo assinado o memorando de entendimento, deu a seguro a razão perfeita para procurar distanciar-se dele, coisa que quereria sempre fazer dada a rivalidade entre ambos. Ora, fazendo isto, Seguro abdicou de contrariar, durante quase três anos, a tese da direita sobre a origem da crise, impedindo-o de efectivamente apresentar uma visão alternativa.

Nisto eu não conseguirei ser mais claro do que o (insuspeito em matérias de Sócrates) Daniel Oliveira já foi, aconselho-vos a ouvir:

 

 



publicado por Gonçalo Clemente Silva às 00:29 | link do post | comentar

Quinta-feira, 25.09.14

Uma denúncia anónima clamou dos abismos: Pedro Passos Coelho, o honestíssimo Primeiro Ministro de Portugal, teria recebido, enquanto exercia o mandato de deputado em exclusividade, a simpática quantia de 5000 euros mensais de uma empresa chamada Tecnoforma. Uma denúncia anónima, em princípio, merece ainda menos crédito que o Grupo Espírito Santo, pelo que a matéria seria de fácil resolução. Bastaria encontrar a resposta a duas perguntas: recebeu Pedro Passos Coelho aquela quantia da Tecnoforma?, se sim, estava Pedro Passos Coelho a exercer o mandato em exclusividade? Duas perguntas apenas, duas simples perguntas. O leitor mais ingénuo pensará então que isto é um assunto de fácil solução. Pergunte-se ao próprio Passos Coelho, que todos têm por honesto, e tudo ficará esclarecido quando, como se espera, ele desmentir a infame denúncia.

 

Mas logo o leitor ingénuo cai em embaraço: a verdade é que o próprio Pedro Passos Coelho, que se suporia ser quem estaria mais bem informado a este respeito, não sabe, não tem a certeza, não se lembra. Felizmente, revelações recentes permitem avivar a sua memória. Não se lembrava se tinha exercido o seu mandato em regime de exclusividade. Pois entretanto viemos a saber que nim: não houve declaração de exclusividade durante o mandato, mas houve uma depois do mandato, em virtude da qual lhe foi atribuído um subsídio a que de outro modo não teria direito. Para comprovar que tinha de facto exercido o mandato em exclusividade, Pedro Passos Coelho assinou uma carta afirmando isso mesmo e submeteu cópias das suas declarações de rendimentos para o comprovar. Nada nestes documentos indica que ele tenha auferido o avultado rendimento proveniente da Tecnoforma ou de qualquer outra fonte. Mais tarde, numa entrevista em 2009, o mesmo Pedro Passos Coelho declarou publicamente que tinha exercido o mandato em regime de exclusividade, e que a sua remuneração enquanto deputado tinha sido a sua única fonte de rendimento durante aqueles oito anos. Implicitamente, isto significa que não recebeu qualquer remuneração da Tecnoforma enquanto foi deputado. Nada indica, portanto, que Pedro Passos Coelho tenha agido de forma pouco própria. As suas próprias declarações o confirmam. Caso encerrado.

 

"Então, perguntará o ingénuo leitor, qual é o problema?" É que Pedro Passos Coelho, mesmo assim, não tem a certeza se é honesto. É certo que ninguém poderá verdadeiramente acreditar que Pedro Passos Coelho, um homem sério, honrado, em suma, um referencial de ética, possa ter feito aquilo de que explicita e implicitamente o têm vindo a acusar: 1. ter-se apropriado de um subsídio a que sabia não ter direito; 2. ter fugido aos impostos; 3. ter prestado declarações falsas para conseguir o acima mencionado. É demasiado incrível – e todos nós confiamos na palavra do Senhor Primeiro Ministro, mesmo quando essa palavra data de uma época em que ele ainda não o era. Pedro Passos Coelho está portanto acima de qualquer suspeita. Ninguém poderá desconfiar da sua honestidade.

 

Excepto, aparentemente, o próprio Pedro Passos Coelho. É que Pedro Passos Coelho é um homem que desconfia de si mesmo. Aquilo que o Pedro Passos Coelho do passado afirmou sem dúvidas e hesitações, o Pedro Passos Coelho do presente, Primeiro Ministro da República Portuguesa, é incapaz de afirmar. Agora teve de pedir informações à Assembleia da República acerca do seu estatuto enquanto deputado. Em 2009 não precisou. Agora teve de pedir à Procuradoria-Geral da República esclarecimentos a propósito do seu vínculo com a Tecnoforma, temendo que possa ter havido algo de menos próprio. Em 2009, em 2000 e em 1999, não tinha dúvidas nenhumas: não houve vínculo nenhum. Não se lembra, esqueceu-se, foi há já muito tempo.

 

Os leitores mais cínicos porventura olharão com alguma desconfiança para este esquecimento. Os leitores mais cínicos que me desculpem, mas essa desconfiança é indigna de uma pessoa de bem. O cinismo vangloria-se de ser uma forma mais lúcida de olhar a vida, mas, na sua sanha de ver o mal em tudo, é cego para aquilo que mais abunda no mundo: as boas intenções, a honestidade, os erros inocentes. Aquilo que os cínicos poderiam interpretar como um expediente dilatório é, na realidade, um esquecimento perfeitamente compreensível. Certamente ninguém espera que uma pessoa se recorde de quais foram os seus rendimentos há 16, 17 ou 18 anos. Eu confesso que não me lembraria. E quem me conhece sabe que tenho uma memória prodigiosa, capaz de conter factos que remontam aos tempos em que Príamo ainda reinava em Tróia. Mas a vida de Pedro Passos Coelho, nestes anos que entretanto passaram, foi tão cheia de actividades, de acontecimentos e sucessos que é perfeitamente normal que se tenha esquecido do que fez no século passado. Ora vejamos. Desde que saiu do Parlamento, Pedro Passos Coelho trabalhou na Tecnoforma e em várias outras empresas, tentou várias vezes fazer-se eleger Presidente do PSD, fez-se finalmente eleger Presidente do PSD, disputou eleições legislativas e venceu, formou Governo, governou e – consta – salvou Portugal. É muita coisa para uma vida inteira, quanto mais para um período inferior a duas décadas. É normalíssimo que haja certos pormenores, por exemplo, ter recebido ou não uma avultada quantia durante um período de tempo relativamente longo, que acabem por escapar.

 

Mas o esquecimento e as dúvidas de Pedro Passos Coelho não são simplesmente compreensíveis, são também uma manifestação do seu carácter profundamente filosófico. Uma pessoa dotada de um carácter superficial e pouco inquisitivo não teria dúvidas: ou bem que é honesto e sabe-o com certeza, ou bem que não o é, e sabe-o também. Mas Pedro Passos Coelho está numa situação de paralaxe. Não sabe se é honesto ou se não é. Outros, mais intelectualmente arrogantes, perante uma aporia desta natureza, embarcariam numa viagem de auto-descoberta, explorando os arquivos dos seus documentos e da sua alma em busca da verdade. Mas Pedro Passos Coelho além de sábio é também modesto. Ecoa nele a profunda sabedoria dos Antigos, que proclamavam a máxima que ecoa pelos séculos: “gnothi sauton” – que é como quem diz, para aqueles que só falam bárbaro, “conhece-te a ti mesmo”. "Gnothi sauton" é uma exortação que nos convida a todos nós a dedicarmos a nossa vida a esta nobilíssima missão. Mas é, sobretudo, um reconhecimento de quão pouco conhecemos e compreendemos da nossa própria condição. É, portanto, ao mesmo tempo uma exortação e uma confissão de ignorância.

 

Pedro Passos Coelho, segue, pois o exemplo dos Antigos, e mostra ser detentor de uma ignorância que muito o honra, uma ignorância verdadeiramente socrática – a exemplo de Sócrates Ateniense, filho de Sofronisco, do demo de Alopece, o filósofo. Mas Passos Coelho segue o exemplo do Sócrates Ateniense noutro aspecto ainda. É que o reconhecimento da sua ignorância servia para o filósofo como um primeiro momento num projecto obsessivo de busca pela verdade – um primeiro momento fundamental para se libertar de suposições e teses inexplícitas sem fundamento. É uma tarefa de monta, e o filósofo, conhecendo as suas limitações, sabe que não a consegue cumprir sozinho. Por isso, sai pela cidade a interrogar quem esteja disposto a conversar com ele, na esperança de que, juntos, consigam aproximar-se aos poucos da verdade. Pedro Passos Coelho reconhece também ele que sozinho não consegue. Por isso, vai para a ágora e pergunta à Assembleia da República, à Procuradora-Geral da República, a quem quer que seja preciso, de modo a desvendar este mistério: se Pedro Passos Coelho é ou não um homem honesto. Não me surpreenderia se, novamente a exemplo do Sócrates Ateniense, ele daqui a pouco começasse a fazer a todos com que se cruzasse perguntas difíceis e embaraçosas. “Que é a Tecnoforma?” “Que é a exclusividade?” “Que é um deputado?” “Que é uma declaração de impostos?” “Que são 5000 euros por mês?” “Que é a ética?” “Que é a hipocrisia?”

 

Termino, pois, fazendo um apelo aos leitores. Quando daqui a tempos virem Pedro Passos Coelho caminhando com olhar esgazeado pela rua, porventura até mesmo descalço, a exemplo de Sócrates Ateniense, fazendo a este e àquele estas e outras perguntas – não o ignorem, não lhe virem as costas. Façam como eu: conversem com ele, nem que seja durante alguns minutos, e digam-lhe quão honesto ele realmente é.

 

 



publicado por Fábio Serranito às 14:06 | link do post | comentar


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