Sexta-feira, 08.08.14

 

Não, não me refiro à esquizofrenia dos neoliberais que acham que faz imenso sentido uma empresa financeira em dificuldades ser protegida dos credores para se salvar de uma bancarrota provocada por gestão criminosa, mas acham inaceitável uma protecção do Estado em relação aos seus credores para se salvar de uma austeridade resultante de uma crise causada pela banca. Sobre isso falei no final do texto anterior.

Também não me refiro à solução banco bom/banco mau encontrada, à imagem do Dr. Jekyll e Mr. Hyde, esse assunto já foi analisado (e satirizado) à exaustão.

 

 

A esquizofrenia de que falo é o resultado aparente da minha opinião sobre todo este caso do BES (aqui e aqui): concordo com a solução encontrada, embora concorde também com as críticas feitas pela maioria dos que criticam essa mesma solução (este é o mais recente exemplo); discordo das justificações dadas por aqueles que, sendo responsáveis pela mesma solução que eu acho boa, se portaram de forma inaceitável em todo o processo até chegar aí, provavelmente contribuindo para causar o problema que agora tentam resolver.

Confuso? Sim!

Esquizofrénico? Acho que não.

Simplesmente, nenhum dos críticos da actuação do Governo, entidades europeias e reguladores, que muito mal estiveram neste processo, consegue propor (que eu conheça), uma vez chegados a este ponto, uma solução melhor.

Por outro lado, aqueles que acabaram por solucionar da forma menos má este problema não têm qualquer justificação para a sua incúria e, à excepção dos responsáveis pela gestão danosa, são, por acção ou amissão, provavelmente os maiores culpados pelo estado a que o BES chegou.

 

A lição a retirar é: qualquer solução para resgatar um banco é má e será sempre má, mas inevitável, e esta parece-me das menos más; aquilo que deve, portanto, concentrar a nossa atenção e os nossos esforços é evitar que se chegue a essa situação, para isso precisamos de alterar a relação entre o Estado e os mercados, principalmente os financeiros, dando mais poder ao primeiro para regular (ou mesmo controlar) os segundos. Isso é que é o fundamental e nisso (também) acho que concordo com os críticos da solução que defendo.

O pior que nos poderia acontecer seria, como já é habitual, ficarmos meses a discutir aquilo que já está decidido e para o qual ninguém tem alternativa, atirando culpas de uns para os outros, sem resolver nenhuma das condições estruturais (porque o são) que criaram este problema.



Gonçalo Clemente Silva às 18:05 | link do post | comentar

Quinta-feira, 07.08.14

 

Qualquer semelhança não será pura coincidência

 

Depois dos pontos positivos que referi no último texto não posso deixar de referir que as mesmas entidades que acabaram por se portar bem nesta última decisão (Banco de Portugal e Governo) não estão isentas de culpa no processo que nos fez chegar aqui.

Por um lado, depois de vários escândalos bancários (e de vários Governadores do BdP com sensibilidades políticas diversas, diga-se em abono do rigor e da coerência), o regulador sempre se mostrou incapaz de avaliar e informar os mercados sobre a realidade dos riscos, já para não falar de os prever ou evitar. No decorrer de vários escândalos bancários, o Banco de Portugal, bem como os sucessivos Governos, não foram nunca capazes de encontrar uma solução atempada para estas crises, sendo obrigados a agir apenas quando não existia mais alternativa para evitar a falência (sejamos claros, é disso que se trata) dos bancos em causa. O expoente desta incapacidade (vamos admitir que é apenas isso, porque poderá ser conivência, o que é mais grave) foi dado no caso do BES, quando o Governo e o Banco de Portugal garantiram a solidez do Banco Espírito Santo apenas um mês antes de ele ser intervencionado, promovendo o investimento no seu aumento de capital e, assim, hipotecando a credibilidade das suas próprias afirmações futuras. Também não ajuda que se tenha sabido, pela voz de Carlos Costa, de que o BdP tinha conhecimento de irregularidades desde, pelo menos, Setembro, apesar de nada ter feito até agora.

O comportamento de sucessivos Governos e administrações do Banco de Portugal funcionam como uma espécie de história de ‘Pedro e o Lobo’, mas ao contrário: querendo garantir confiança no sistema bancário, os responsáveis públicos têm sistematicamente garantido não haver qualquer perigo até ao momento em que já não o conseguem fazer sem se rirem. Convenhamos que não há nada pior para a confiança no sistema bancário do que gerar-se a ideia de que, além de não se poder confiar nos bancos, não se pode confiar na regulação e em quem tem por função fiscalizar os bancos. Isto é muito, muito perigoso e, nesta matéria, a culpa não devia morrer solteira.

 

Quero ainda salientar um ponto que, não sendo em abstracto desejável, me parece positivo nesta solução: a responsabilização dos investidores financeiros, seja de detentores de acções ou de obrigações (embora neste último caso ainda não se perceba bem quem será responsabilizado e quem não será).

Vamos ver se nos entendemos, um investimento (e um investimento em dívida, embora diferente de em capital, não seixa de ser investimento) implica sempre um grau de risco. É essa a lei do capitalismo, talvez até mais que isso, da economia em geral. Qualquer empresário que invista numa empresa pode acabar a perder dinheiro se o negócio não funcionar, não é aceitável que para o grande capitalismo financeiro exista uma espécie de protecção em que se nacionalizam só os prejuízos, mas sempre se protegem os lucros e a detenção de capital.

Sei que muitos verão isto, incluindo gente que eu muito admiro, como uma violação para quem investiu as poupanças, resultantes do seu esforço de anos, em acções (ou obrigações). Sei que durante anos se têm promovido as aplicações financeiras como uma forma de poupança, não são; as aplicações financeiras são uma forma de investimento, podem ser uma aplicação das poupanças, mas não são poupanças, porque implicam necessariamente risco. Quem deseja apenas poupar tem para isso os depósitos a prazo, estes sim, sem risco e garantidos. É absolutamente aceitável que as pessoas procurem as aplicações financeiras como forma de fazer crescer as suas poupanças, mas existe o risco inerente, que no caso do BES se verificou; foi para diluir esse risco, exactamente porque ele existe sempre, que se inventou a diversificação das carteiras de investimento. As poupanças, por definição, têm como objectivo guardar o que se amealhou, a procura da mais valia é outro business e esse implica risco. Se as aplicações financeiras não tivessem risco, não haveria razão para a própria existência das contas a prazo.

Se os investidores foram lesados por práticas de gestão ruinosas, é outro assunto e já defendi (no texto anterior) que espero que a justiça o resolva. A família Espírito Santo continua a ter património para ressarcir, em parte pelo menos, aqueles que prejudicou. Quanto ao facto de, apenas há um mês, a mesma entidade que agora decidiu responsabilizar o capital ter garantido a solidez do investimento, parece-me que talvez também aqui haja espaço para intervenção judicial, pelo menos contra quem prestou tais declarações.

Apesar de tudo, nomeadamente do inegável prejuízo para investidores (grandes e pequenos, enganados ou não), entendo que é positivo que sejam os investidores a pagar o grosso da factura de um investimento que correu mal, tal como teriam (e tiveram) os lucros se corresse bem. O que é competência da justiça resolver não entra para a questão.

 

Curioso não é encontrar tantos opositores da responsabilização de investidores à esquerda (embora não deixe de o ser), verdadeiramente curioso é encontrar tantos que o defendam hoje à Direita, contrariando tudo o que disseram sobre os investidores em dívida pública. Já não é inegável que isso afecta a confiança dos mercados, como aliás hoje se viu com as acções do BCP? Ou agora, no caso da banca, os custos já são transitórios e menores que os benefícios, como muita gente à esquerda tem defendido em relação a uma restruturação da dívida pública?

E já agora, a protecção contra credores já é um instrumento útil para salvar empresas em dificuldades, mas com hipóteses de recuperação renegociando as suas dívidas? Deixem-me salientar (porque haveria muito melhores exemplos de restruturações empresariais, com sucesso, que passaram por uma protecção contra credores) que ter hipóteses de recuperação não me parece ser o caso do Grupo Espírito Santo, mas não é todos os dias que se tem um Ricardo Salgado a pedir protecção contra credores e não protecção aos credores.

Como explicarão os neoliberais no Governo que a protecção contra credores não implica que os investidores nunca mais confiarão naquela empresa, como têm defendido, contra todos os exemplos históricos, em relação aos Estados?

 

Do capital não espero ideologia, como já tantas vezes foi explicado, só pragmatismo. Confesso que as contradições dos neoliberais também não me chocam, só chocariam se eu não achasse que as ideias todas que propalam são apenas justificações para um programa político que mais não é que a defesa dos interesses do capital, apesar de, por vezes, terem consciência que têm de deixar as tretas ideológicas à porta para evitar uma catástrofe. Foi o caso.

O que me espanta é que ainda tanta gente acredite neles…

 

 



Gonçalo Clemente Silva às 00:53 | link do post | comentar

Quarta-feira, 06.08.14

 

 

A solução encontrada para resolver o problema no Banco Espírito Santo está, para mim pelo menos, cheia de novidades. A primeira é evidentemente o nome escolhido, em relação ao qual não tenho nada contra, admito até que, depois de vários dias infernais a arranjar solução para esta embrulhada, já estava tudo compreensivelmente demasiado ‘frito’ para se preocupar com essa questão e deram-lhe o nome óbvio para a finalidade que tem – apagar toda a memória do BES e preparar uma coisa nova para vender ao melhor preço. A segunda grande novidade é que se saíram com uma boa solução. Boa ou, no mínimo, a melhor que me parece possível. Essa é aliás a razão pela qual escrevo este texto, é tão raro concordar com o Governador do Banco de Portugal e com o actual Governo que não queria deixar de o dizer (até porque isto não pode ser só dizer mal, sem dar o crédito devido).

 

No entanto, como sempre nestes casos, o diabo está nos detalhes pelo que aquilo que me parece agora ser bom dependerá muito da concretização objectiva, até porque ainda subsistem muitas dúvidas sobre operacionalização da solução apresentada.

Parece-me também claro que nenhuma solução apresentada, por si só, chegará para resolver todo o problema do BES e do GES, que só poderá ser resolvido de forma decente por via criminal e com a responsabilização da família Espirito Santo (bem como de outros). Não me parece aceitável que o, ainda muito, património que detêm possa ficar incólume depois de tudo o que se sabe e dos custos que têm e irão ter as suas acções. Ainda assim a solução apresentada parece-me ter tês grandes vantagens.

 

Desde logo a garantia absoluta dos depósitos. Bem sei que até ao montante de 100 mil euros eles estariam sempre garantidos (não sem custos) e admito que possam não ser preocupantes potenciais perdas em algumas chorudas contas milionárias (pelo menos se isso permitisse evitar riscos para o erário público), mas o problema não é esse. Mesmo que essa preocupação não exista para contas pessoais, isso não é verdade para o caso das empresas. Qualquer pessoa que conheça o nosso tecido produtivo sabe que é comum que a movimentação de dinheiro de muitas das nossas pequenas e médias empresas implique que em muitos momentos valores na ordem das várias centenas de milhares de euros estejam temporariamente no banco. A possibilidade de perdas em depósitos de empresas acima do valor que está garantido colocariam milhares de empresas nacionais na potencialidade de não poderem cumprir com as suas obrigações e, dada a actual situação económica, sabe-se lá se não em risco de falência. Evitar esse cenário, bem como o potencial risco em termos de credibilidade do sistema, justifica por si só uma intervenção que garanta de forma absoluta todos os depósitos, como é esta.

 

A segunda grande vantagem é a salvaguarda dos postos de trabalho. Quando o desemprego supera os 14% qualquer aumento dos desempregados é preocupante, mas não nos enganemos, o BES não é o BPN ou o BPP. No caso do BES estamos a falar de cerca de dez mil trabalhadores directos que não podem deixar de ter os seus postos de trabalho assegurados neste contexto. Esta solução que passa, não por integrar o BES num banco já existente (como a CGD), o que implicaria sempre uma importante diminuição de funcionários, mas sim por tentar vender um banco renovado e recapitalizado a algum investidor. Esta parece-me ser, de longe, a melhor opção para manter o maior número de postos de trabalhos, isto é, se não se cair na tentação de vender o novo banco a algum concorrente directo já presente no mercado, que imediatamente fará uma restruturação para reduzir redundâncias.

 

A terceira grande vantagem é exactamente aquela que levanta maiores dúvidas e também a maior novidade. O Estado não injecta dinheiro directamente no novo banco, o estado empresta dinheiro ao Fundo de Resolução Bancário (que tem como financiadores todos os bancos a operar em Portugal e é dirigido pelo Banco de Portugal) e será este fundo que irá injectar dinheiro no novo banco e deter o seu capital. Isto, se tudo correr como é suposto, significa que, mesmo que a recapitalização e futura venda gere prejuízo, o Estado recebe o dinheiro de volta, sendo o fundo (e indirectamente os bancos seus financiadores) que irão suportar os prejuízos. Em Portugal, infelizmente, o ‘tudo correr como é suposto’ com que iniciei a frase anterior pode não ser animador, mas é sempre preferível a soluções em que o Estado e os contribuintes não estarão protegidos, nem se correr como é suposto. Parece-me de facto muito bem que se ponham os restantes bancos a sustentar o custo de manter a confiança no sistema bancário. Sei que todos seríamos prejudicados sem essa confiança (e todos acabamos por ser beneficiar dela) mas eles são os únicos que têm feito directamente milhões de euros de lucros com ela.

 

Não acho que esta solução seja isenta de riscos, como nenhuma seria, e acho que provavelmente a fase mais importante será a da execução de tudo isto, sendo que nessa matéria não tenho grande confiança no Governo ou em Carlos Costa, mas para início não está mal. Sejamos optimistas, surpreenderam-me pela positiva e terão de mim o benefício da dúvida. Não deixa de ser natural que tenha sido necessário o Espírito Santo para conseguir tal proeza.



Gonçalo Clemente Silva às 00:21 | link do post | comentar

Quarta-feira, 30.07.14
A propósito de um artigo de opinião hoje publicado no Jornal I pelo Pedro Nuno Santos, a certa altura afirma que «A política deixou de dar resposta aos problemas e aos anseios dos cidadãos e estes deixaram de acreditar nela como forma de melhorar as suas vidas. O problema é a ausência de resultados e não o formato do sistema eleitoral.»

O problema não é, efectivamente, o sistema eleitoral, da mesma maneira que não é a forma de regime ou o voluntarismo de quem alerta para a degradação das instituições. Reforço a minha leitura de que estamos no fim de um sistema sem vislumbre do que se seguirá. Podemos criticar a emigração em massa e os baixos salários e a taxa de desemprego mas, inevitavelmente, nenhum governo resolverá, em tempo útil, estas questões.

A alternativa aos problemas dos nossos tempos é a radicalização da acção e do uso da palavra. E o que nos trará essa radicalização senão a queda mais rápida do sistema vigente? Assumindo que estamos mais confortáveis com a mudança abrupta da ordem das coisas radicalizemo-nos na defesa dos nossos interesses. Acontece que os interesses são tão difusos dentro da massa 'oposicionista' que não fica esclarecido ou claro o rumo que se seguirá.

O certo é que a manutenção dos status quo das elites dirigentes, mormente da elite económica e política, não logrará sequer manter a estabilidade política necessária para viver numa razoável paz social. Mas, pelo contrário, a destruição das mesmas elites, fará ruir mais rápida e definitivamente, durante um tempo imprevisivelmente longo, o que resta desta mesma paz social.

Tenho para mim que só a ordem (de preferência democrática) sustenta o progresso, e que qualquer desregulação beneficia o elemento mais poderoso propiciando o aumento do capital pelo capital e a acumulação da propriedade pelos seus detentores. Em caso de vazio de poder ou de desordem momentânea teremos os peixes grandes comendo os peixes pequenos. Não há anarquia ou anarquismo que não seja, sempre, anarco-capitalismo. Só o primado da lei defende o cidadão comum.

Beccaria escreveu que vale mais uma pena leve que seja sempre aplicada que uma pena forte e violenta que só esporadicamente o seja. Num mundo globalizado o primeiro poder que se impôs foi o do Capital. Num mundo globalizado governado pelo Capital não há espaço para a lei e a regulação. Num mundo globalizado em que o poder do Capital superou, em larga medida, o dos Estados, não há lugar para o legalismo. Num mundo globalizado onde não há lugar para leis que se possam, universalmente, aplicar, não há lugar para a Justiça mas apenas para a especulação e a violação dos princípios básicos de defesa dos Direitos Humanos. Num mundo em que a verdadeira soberania é a soberania financeira, em que as grandes empresas são mais ricas e poderosas que as nações médias, esmagam as pequenas e dominam as grandes, não haverá espaço para reformas que possam fazer mais do que prolongar a dor, qual paliativo recorrente. Argentina, Portugal, Grécia, etc (num mundo civilizado e mais notório). Este Capital, arrastado por uma mão invisível e insconsciente, desprovida de humanidade (porque é movida pela acumulação do capital) vai puxando a corda sistematicamente até que, um dia, nem a França, que esteve quase, se salvará. Os Estado não podem continuar a construir linhas Maginot para deter tanques, é preciso construir firewalls contra a avareza e rapina.

Se à pequena escala, em Portugal, o bipartidarismo democrático foi sustentado pela vontade dos banqueiros e duns poucos detentores do capital com influência directa na tomada de decisões, a verdade é que o fim do domínio desta oligarquia humana nacional vai ser substituida, brevemente, pelo conceito do homem que, em Washington ou Moscovo, carrega no botão que faz deflagrar a bomba em Bagdad ou em Donetsk. O que significa dizer que vai ser substituida pela vontade do especulador de acumular capital independentemente do dano que causa (quer porque a causa primeira da acumulação da sua riqueza está demasiado longe, quer porque os financeiros e especuladores não estudam essa causa mas apenas a consequência directa da acção que tomam).

Podemos votar ao centro nas deputais, à direita nas municipais e à esquerda nas presidênciais. Tudo o que estiver abaixo dum domínio de controlo da actividade económica internacional tornar-se-á responsabilidade das Juntas de Freguesias. Qualquer reorganização terá de ser mundial, até porque soluções autocráticas tornarão qualquer governantes, na melhor as hipóteses, num qualquer Avelino Ferreira Torres de trazer por casa. Não se trata apenas de vergar duramente o capital à vontade e acção política. Trata-se de vergar o capital às necessidades humanas. Tout court.


José Borges às 14:36 | link do post | comentar

Quarta-feira, 23.07.14

 

Em tempos, o Ministro Brasileiro Eduardo Portella, com a sua célebre frase “Eu não sou Ministro, eu estou Ministro”, mostrou claramente qual a perspectiva que se deve ter do desempenho de cargos, da sua transitoriedade, e da separação entre o cargo (e, por maioria de razão, a organização) e a pessoa que o desempenha. Infelizmente, no PS, impera hoje enorme confusão entre a liderança e o partido em si.

 

 

A direcção nacional do PS e particularmente António José Seguro vivem hoje no absoluto equívoco de confundir o Partido Socialista com a sua direcção e o seu Secretário Geral. Num partido político, mais do que em qualquer outra organização, é absolutamente natural e saudável que existam diferentes opiniões e diferentes tendências internas. É absolutamente normal, desejável até, que elas se confrontem, que tenham projectos e objectivos diferentes. Se assim não fosse, uma importante parte da função que os Partidos desempenham na Democracia seria abandonada.

 

Quando Seguro (e os seus mais próximos dirigentes de topo) fala em “traição” ou diz que “criaram um problema ao PS” confunde o partido com a sua direcção nacional (e com ele próprio). Os apoiantes de Seguro entendem que a crise que foi aberta é negativa para o PS e têm liberdade de entender isso, tal como os apoiantes de Costa entendem que estão a ajudar o PS a sair de uma situação de estagnação que se tornou evidente com os resultados das Europeias. O que não é admissível é que se ache que quem cria problemas à direcção nacional está a criar problemas ao partido, como se ambos fossem uma e a mesma coisa. Fazem lembrar o governo quando afirma que o Tribunal Constitucional está a levantar problemas ao país quando mais não faz do que cumprir a sua obrigação, levantando problemas para o governo o que é diferente porque o governo dirige o país, mas não é o país.

 

Ninguém criou problemas ao PS, foram criados problemas à direcção nacional do PS. Um ataque à direcção do PS, legítimo ou ilegítimo, não é um ataque ao PS. Se o fosse, teríamos o esquizofrénico problema de termos vários Partidos Socialistas uma vez que, Interpretando dessa forma, o actual partido Socialista está claramente a atacar o Partido Socialista de há três anos e o putativo Partido Socialista do próximo ano está, presume-se, a atacar o actual Partido Socialista. Seria uma confusão, não fosse o facto estabelecido, ainda que ignorado por Seguro, de que uma particular direcção não define uma organização.

 

Poder-se-ia achar que esse discurso é um mero recurso retórico que ajude a mobilizar apoiantes e a convencer indecisos. Seria já suficientemente mau que assim fosse, manipulando os sentimentos de apoiantes e simpatizantes. Mas não o é, é a materialização da visão de quem acha que é, mais do que dono do partido, ele próprio o partido e isso é muito pior.

 

A estratégia de se barricar atrás de uma interpretação enviesada dos Estatutos, a estratégia de ataque (que muitas vezes resvala do político para o pessoal) a António Costa, que prejudicará e muito o partido se Costa ganhar as primárias, a convocação de eleições para as distritais do partido, multiplicando por 21 as disputas internas, e o arrastar por quatro penosos meses esta clarificação só podem ser explicadas pela visão de quem acha que está a defender, não um Secretário Geral específico, mas o partido.

 

Só isso pode explicar os desmandos que, existindo de parte a parte, a nível de topo estão presentes maioritariamente do lado de Seguro (com o expoente do filho que acusa o próprio pai de ser tonto). Só isso pode justificar que se ponha acima do próprio partido e dos seus interesses a defesa do seu actual líder (em detrimento de líderes passados e futuros, diga-se). Só o estado mental e emocional de se estar a defender, não uma facção, dentro de várias existentes no partido, mas o próprio partido de uma tomada hostil por forças ilegítimas pode justificar o extremo a que se está a chegar, arriscando o futuro daquilo que pensam (genuinamente porventura) defender.

 

Ora por muito boa conta em que se tenha Seguro (e os seus apoiantes), o partido existia antes dele e (espero) continuará a existir depois dele (seja isso quando for) e desta disputa. É por isso que deveria ser o futuro do PS, mais do que de qualquer direcção nacional específica, que deveria presidir às nossas decisões, o que está longe de se verificar ultimamente nas decisões dos órgãos nacionais.

 

Esta confusão entre quem está Secretário Geral e o próprio Partido Socialista não é só errada, é perigosa. Quando um Secretário Geral cai neste erro, pondo assim em causa o partido, a sua substituição já não é só necessária, é urgente.



Gonçalo Clemente Silva às 01:55 | link do post | comentar

Quarta-feira, 16.07.14
Quando em 1920, V. I. Lenin publicou o seu livro 'Esquerdismo, a doença infantil do comunismo', atacou os comunistas ingleses e alemães por recusarem fazer acordos com os respectivos governos, nomeadamente com os partidos de esquerda moderada. Lenin tinha a ortodoxia ideológica da Esquerda e o pragmatismo racional da Direita. Esta aparente 'cedência' aos moderados era uma maneira de, ao impedir a Direita de aceder ao poder, influenciar os trabalhistas ou os socias-democratas de modo a 'radicalizar' a sua acção governativa. Havia uma compreensão clara do conceito de 'mal menor', não como um bem, mas como isso mesmo, um 'mal menor'.

Quando Catarina Martins afirma, discordando, que 'Ana Drago privilegia soluções de governação' contrapondo que o que se impõe é a necessidade de um programa de esquerda sem cedências, o que a líder do Bloco está a afirmar é 'governaremos com o nosso programa ou tudo nos é igualmente mau'. Esta desresponsabilização despudorada à melhor maneira de Pôncio Pilatos tem um grande ónus sobejamente conhecido: facilita a governação da direita. E isto não é coisa pouca: representa, outrosim, a maior ignomínia política da esquerda radical portuguesa desde o fim do PREC. A aparente 'desortodoxia' da nova esquerda bloquista é, afinal, um engodo, pois representa apenas a incapacidade política de lidar com a realidade.

Se, há uns anos, durante o crescimento exponencial do BE, havia a convicção profunda de que poderia, por força da propaganda e do valor das ideias, continuar num 'crescendo' eleitoral que afirmasse claramente o espaço que esse partido ocuparia no espectro nacional, hoje em dia, uma vez perdido o vigor inicial, nota-se que pouco há-de restar. A actual aproximação ao Podemos espanhol apresenta-se como um desejo sem valor. Uma projecção. Isto, e o que explico de seguida, surge num cenário pós-marxista, depois de Roland Barthes ter introduzido a importância da semiologia através do discurso, do símbolo e da língua.

Após isto, parece-me, o cerne do problema do Bloco de Esquerda, não reside aqui. Se notarmos que força eleitoral do BE encontra-se numa certa classe média urbana que adopta um radicalismo fácil por virtude duma ortodoxia permeável a um estilo de propaganda e discursos proto-libertários anti-capitalistas, chegaremos à rápida conclusão que não será nunca um partido de implantação nacional extensível a todos os cidadãos. Há um desprezo bloquista pelos 'itens' populares que tem tendência para uma de duas coisas: classificá-los em frasquinhos de formol e guardá-los em gabinetes de curiosidades ou adoptá-los como simbólicos pela sua beleza estética. Ao contrário do Partido Comunista Português, o militante intermédio do Bloco de Esquerda pode muito bem ser apenas um reprodutor exímio do banal anti-conformismo mas militantemente activo. Não nos enganemos: sobejam os militantes intermédios dos partidos do poder que são o seu contrário igualmente repudiável: banais conformista expectantes. Este últimos costumam trazer a gamela à cinta.

Diz o dito latino 'omnis civitas contra se divisa non stabit': a cidade contra si desavinda não permanecerá. O mesmo acontece com a Esquerda. Mesmo que pensemos que o panorama político actual nos obrigará a largar, mais tarde ou mais cedo, estes velhos conceitos antitéticos republicanos de esquerda e direita, a verdade é que a 'civitas' continua a girar em seu torno, pelo que continuaremos a fazer política neste base. O 'Podemos' vem dizer que já não se trata de uma luta de esquerda e direita mas os de baixo contra os de cima, o que, em abono da verdade, é exactamente a mesma coisa quando não pior, já que esta segunda representação virará os cidadãos uns contra os outros numa base agressiva e populista.

O exaspero dos militantes da esquerda radical que, conscientemente, não vêem as suas forças políticas influenciarem a política numa base real, é que transformará a esquerda. Do PS ao BE. Veremos se o Livre foi o primeiro a perceber isto. O Bloco, esse, enquanto existir nestes moldes, continuará a servir a Esquerda como um pacifista serve a paz sempre que põe bombas nos quartéis.


José Borges às 14:46 | link do post | comentar

Terça-feira, 15.07.14

 

E julgareis qual é mais excelente,
Se ser do mundo Rei, se de tal gente.

 

Muita razão tinha Camões quando, na boca de Vasco da Gama, apelidou a pátria nossa amada de “ditosa”. Ditosa ela é sem dúvida: ditosa pelo seu clima ameno, pela beleza dos seus campos, dos seus bosques, dos seus montes, rios e praias; ditosa pelos seus belíssimos monumentos, relíquias e memoriais de um passado grandioso; ditosa pela doçura e expressividade da sua língua e pela grandeza dos poetas que a embelezam; mas sobretudo ditosa pelas suas gentes acolhedoras, boas e honestas. Mas a grande dita de Portugal reside sobretudo nas suas (perdoe-me o leitor o galicismo) elites, na fina flor da sua gente, na crème de la crème da Nação Portuguesa.

 

Afortunada pátria! Felícissima nação! Mais de cem anos passaram desde a implantação da Primeira República, um século inteiro desde que o princípio da hereditariedade foi expurgado do ordenamento jurídico. No entanto, aquilo que poderia ter resultado numa calamidade impensável, numa segunda Alcácer-Quibir dos nossos mais assinalados barões, na anulação e extinção da nossa nobreza, da nossa aristocracia, em bom vernáculo, dos nossos melhores, afinal, para nossa boa-fortuna, teve efeitos muito diferentes. Sursum corda!, que é como quem diz, alegremo-nos!, pois nem mesmo um século sob o jugo de princípios igualitários conseguiram escorraçar da pátria as suas gentes respeitáveis.

 

Os riscos, porém, eram tremendos. Sem um princípio consagrado por meio do qual se pudesse julgar a quem devem ser entregues os mais altos cargos e as mais pesadas responsabilidades, corria a pátria o perigo de se ver nas mãos de gente sem préstimo, gente desonesta, gente incapaz – gente, em suma, que a conduzisse para a ruína. A ideia republicana, justiça lhe seja feita, é bem-intencionada: pôr acima de quaisquer outras considerações, incluindo o sangue, as relações familiares e de amizade, o mérito. Convenhamos que é uma ideia que merece aplauso. Os melhores, os mais capazes, os mais honestos devem, em teoria, ser aqueles nas mãos dos quais devem estar depositados o poder e a responsabilidade.

 

Mas quem deve ser o juiz do mérito? O princípio republicano (ainda que não aplicado por inteiro pela Primeira República) nisso é claro: o povo. Mas o povo, como todos sabemos, pode ser acolhedor, bom e honesto, mas pouco entende dos arcanos do poder e facilmente se perde neles. Por isso, como Teseu no labirinto, precisa da ajuda de uma Ariadne para encontrar o seu caminho e derrotar o Minotauro do populismo, que só leva ao caos e à desordem. Qual Ulisses, precisa de quem o amarre ao mastro do navio, para que não se precipite no mar e na ruína, seduzido pelo canto das Sereias que lhe prometem bens meramente aparentes e enganadores. Precisa, portanto, de uma mão benévola que o guie e que o ampare, que o acalme nas suas preocupações, que lhe acaricie a cabeça em jeito de consolo, que o proteja e o embale. A vida do povo é já árdua o bastante para que tenha ainda de se apoquentar com matérias tão complexas e para as quais (abençoada pátria!) não escasseia quem tenha o engenho de as tratar.

 

Nisto Portugal é superlativamente ditoso. Por feliz coincidência, quase todos aqueles a quem outrora o poder estava entregue em virtude das suas relações de parentesco e amizade estarão agora em cimeiras posições, mas em virtude do seu reconhecidíssimo mérito. É testemunha bastante disto que a larga prole daqueles nossos egrégios avós – ou, na sua falta, quem fielmente a serve – ocupe agora muitos dos mais importantes e influentes cargos no Estado, na Banca e nos Negócios. Felicíssima pátria! O princípio de selecção das nossas elites mudou radicalmente – mas, por feliz casualidade, as elites continuam (descontando um ou outro caso mais duvidoso) a serem as mesmas. É isto um claríssimo sinal de que nós Portugueses fomos fadados a sermos sempre governados por gente boa e respeitável, sempre a mesma, porventura em virtude de um qualquer favor divino.

 

Reflectir condignamente acerca deste profundíssimo mistério ultrapassa em muito os meus dotes intelectuais. Outros países, certamente menos afortunados, não gozam deste favor. Nesses outros países a introdução do princípio do mérito e de outros mecanismos com o intuito de constituir uma sociedade mais igual levaram a uma substituição das suas elites. São outros agora que os governam, para o bem e para o mal. Mostra isto que aqueles que antes os governavam não deveriam estar onde estavam. Em Portugal, continuaram onde sempre estiveram, o que prova que já estavam onde deveriam estar. E é esta estabilidade a causa da tanta fortuna.

 

Outros países fazem uso constante, oportuno e eficaz de mecanismos de controlo, de regulação e de fiscalização daqueles que ocupam cargos de poder não só na Política como nos Negócios mais importantes. Nesses outros países a Imprensa vigia, fareja e esgravata, procurando erros e mesmo desonestidades naqueles que mais responsabilidades detêm na condução dos destinos colectivos dessas nações. Há quem veja nestas circunstâncias sinais de que esses outros países são mais democráticos, justos e funcionais. Mas talvez não seja esse o caso. Pode antes ser que a necessidade de tais mecanismos e de uma Imprensa hiperactiva seja, pelo contrário, sinal da falta de dimensão moral e de respeitabilidade das suas elites corruptas. O povo português, felizmente, vive bem sem esses expedientes, no sossego confiante de quem é quase sempre governado por gente respeitável.

 

São por isso absurdas as recriminações daqueles entre nós que se queixam da impunidade e da inimputabilidade dos nossos melhores, que acusam até de constituírem uma família – no sentido mafioso do termo. Dizem esses cínicos que as elites portuguesas nos arrastaram para a ruína, que têm vivido à custa do Estado e do Povo português, que têm exercido uma influência excessiva e indevida sobre a Política, que têm monopolizado os lugares mais importantes e influentes da nossa sociedade, e que têm constituído teias de favorecimento, interesse e influência que lhes permitem cometer impunemente as mais diversas ilegalidades, e que representam assim um risco para a democracia e para o Estado de Direito. Tudo isto é falso, tão falso que nem merece discussão. Todos sabemos que entre as elites portugueses não há escroques, só gente respeitável. E assim tem sido desde tempos imemoriais.

 

É portanto justíssimo que esta gente respeitável seja protegida pela Imprensa, poupada pelos Tribunais, ajudada pela Política, e, por fim, amparada pelo Povo. É que nada fizeram para merecer o infortúnio que sobre eles ocasionalmente se abate e não são de todo responsáveis pelas dificuldades que actualmente afectam Portugal. São em tudo diferentes dos desempregados, dos reformados, dos pobres, dos que vivem à custa do Estado e de todos aqueles que viveram acima das suas possibilidades – pessoas a quem nós outros nada devemos e que, para expiação das suas faltas e para bem do País, devem ser largadas ao seu próprio destino, para que aprendam a lição. As nossas elites desamparadas, que acidentalmente tropeçaram no infortúnio, estas elites inocentes, essas sim devem ser protegidas e acarinhadas. É, afinal de contas, uma questão de mérito e de justiça.

 

É que a última coisa que queremos é ajudar quem não merece e recompensar injustamente quem quase nos arruinou.  


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Fábio Serranito às 14:10 | link do post | comentar

Quarta-feira, 09.07.14

 

"Reek, Reek, it rhymes with weak."

 

 

A realidade é repetitiva. Há um comportamento que se tem vindo a repetir dia após dia nos últimos três anos, a ponto de constituir um padrão absolutamente previsível.

 

São-nos impostas medidas dolorosas, mas de eficácia duvidosa, até mesmo contraproducente. Os ganhos, se existem, são parcos e em nada compensam os sacrifícios. E, no entanto, o Governo alegra-se, o Governo rejubila, o Governo canta Ossana e Gloria in Germania Angelae! ! E, além disso, rejeita iniciativas que poderiam aliviar o sofrimento do país.

 

Os leitores certamente partilharão a minha perplexidade. Como explicar semelhante comportamento?

 

Os mais cínicos de entre vós talvez se atrevam a sugerir que o Governo trabalha não para o bem do país, em nome de uma qualquer interpretação legítima e razoável do que possa ser o interesse nacional, mas sim em nome de uns quaisquer interesses mais ou menos obscuros, que, neste caso, estão em completa desarmonia com o que se desejaria para o país. Os leitores mais sintonizados com o discurso do “politiquês” poderiam até dizer que existe neste momento um consenso alargado quanto ao que constitui o interesse nacional e o que é preciso fazer para o realizar, mas que o Governo, com os seus poucos aliados, se coloca voluntaria e conscientemente fora desse consenso – aliás, contra esse consenso.

 

Esta interpretação pode e deve ser rejeitada à partida. É impensável que possa haver um Governo europeu, democrático, civilizado – diria até mesmo simplesmente decente – que se ponha propositadamente contra o interesse da nação que governa. É mais do que impensável – é absolutamente monstruoso. Pensamentos desta natureza não são dignos de gente de bem, e entretê-los por mais que um minuto ofende não só o Governo ele mesmo como os próprios que o articulam. Podemos seguramente partir deste princípio que é incontroverso entre gente de bem, entre as pessoas respeitáveis e inteligentes: o Governo e os seus aliados só querem o nosso bem.

 

Mas então como explicar esta ausência de sintonia entre o que o Governo faz e os seus próprios intentos? Será pura incompetência, como sugerem alguns? Estaremos a falar de um Governo que trabalha para o nosso bem e se esforça vigorosamente para levantar hoje de novo o esplendor de Portugal – mas que se atrapalha, tropeça nos próprios pés, e que não consegue senão ir cambaleando pelas ruas acima, estatelando-se ora contra esta ora contra aquela parede? Teremos, portanto, um Governo cheio de boas intenções, mas trapalhão? Um Governo que afunda aquilo que quer salvar? A ideia de um Governo trapalhão é engraçada e até tem o seu encanto. Faz lembrar talvez umas daquelas personagens femininas de comédia romântica, que vai avançando de pequena asneira em pequeno embaraço até aos braços fortes, musculados e protectores do homem da sua vida.

 

E é precisamente este o problema. Onde está o nosso galã, o nosso herói, o nosso salvador? Que é feito do homem alto, elegante, musculado que, no fim de tanta tropelia, nos pegaria ao colo para nos levar para a cama e para a felicidade? A ingenuidade romântica do nosso Governo leva-o a pensar ter há anos encontrado este sonho de amante no Governo da Alemanha, liderado pela competentíssima Angela Merkel, nas instituições internacionais nossas credoras, na liderança da União Europeia.

 

E, no entanto, este amante bate-nos, maltrata-nos, humilha-nos quase diariamente, difama-nos publicamente. Portugal é preguiçoso, Portugal não trabalha, Portugal vive acima das suas possibilidades. Portugal não merece ter coisas boas e bonitas. Portugal é irresponsável, criminosamente pródigo, um perdulário, potencialmente um vigarista. Portugal não é capaz de tomar conta de si mesmo – e por isso precisa de ser orientado, reeducado, governado pelo braço forte do seu amante. Portugal tem de mudar o seu modo de ser, os seus hábitos, as suas convicções, as suas tradições. Portugal não é bom o suficiente para estar na companhia dos seus parceiros europeus. Portugal é uma vergonha e um risco para a Europa. Isto diz a Portugal o amante que o Governo escolheu. E Portugal – ou pelo menos o Governo – acredita, segue, obedece.

 

Portugal faz o que lhe mandam, submissamente, sem se queixar, crendo sem dúvida ou hesitação que tudo o que o seu amante lhe impõe é, na realidade, para seu próprio bem. Portugal entrega-se, rende-se aos encantos dominadores do seu amante. Não importa que o amante humilhe Portugal, que lhe bata, que o faça sofrer – porque o amante é perfeito, o amante é sábio e, sobretudo, o amante ama Portugal a tal ponto que faz tudo para o ajudar, para o salvar mesmo de si próprio. Portugal sabe que não presta e que é só na sua entrega total ao amante que poderá encontrar para si algum valor, redimir-se dos seus erros, limpar as suas culpas e dar sentido à sua existência.

 

Isto seria belo se não fosse tão trágico. Substituamos Portugal por uma qualquer mulher ou homem numa relação desta natureza, e não haverá quem não se sinta cheio de pena – e muitos de nós até se sentiriam tentados em chamar a polícia. Portugal está numa relação abusiva e o Governo, a quem, repito, não podemos nunca imputar má-vontade contra o país por cujos interesses tem o dever de lutar, não faz nada para o salvar; pelo contrário, parece motivado a mantê-lo lá, refém, impotente nas mãos do agressor.

 

Dirão alguns que este retrato é distorcido ou exagerado. Dirão até que o modo como uso esta metáfora não dá conta da complexidade da relação entre Portugal e os seus credores, perdão, salvadores. Dirão que sim, que a ajuda que nos prestam dói e continua a doer e doerá durante muito tempo; que por vezes parece que estão a abusar de nós e não a resgatar-nos. Mas, acrescentarão, tudo isto não só é para nosso bem, como daqui nasce uma relação mais profunda, de uma maior confiança. É nesta dor que nos redimimos, mas, sobretudo, é nesta dor que nos conhecemos a nós mesmos e que adquirimos os meios e os instrumentos para construirmos um novo Portugal – um Portugal melhor, mais confiante, menos indefeso. Dirão que esta relação amorosa não é abusiva. É antes sim uma relação sado-masoquista, no qual Portugal é o parceiro submisso, mas no sentido bom do termo: uma relação voluntária, baseada na confiança e (assim o afirmam os seguidores deste estilo de vida) no amor – um amor invulgar, raro, extraordinário, mas mesmo assim verdadeiro, autêntico e, nesse sentido, tanto mais admirável.

 

Enganam-se os que assim pensam. A metáfora que usam coxeia tão ostensivamente que se deixa apanhar quase tão rapidamente quanto o proverbial mentiroso. É que uma relação tal como descrevem é toda ela voluntária. E a verdade é que, de cada vez que alguém pensa que Portugal deve ou deixar o seu amante ou somente fazer algo para mudar os termos da relação, somos de imediato relembrados de quão medonhas seriam as consequências. Uma tal relação é baseada na confiança mútua, e tanto o parceiro submisso quanto o dominador ficam expostos, se entregam um ao outro. Mas Portugal é sempre alvo da mais profunda desconfiança: de cada vez que faz algo que não corresponde exactamente às expectativas, é alvo de recriminações e obrigado a corrigir o seu comportamento. Por último, as relações sado-masoquistas usam palavras de segurança, isto é, palavras que sinalizam ao parceiro que é melhor parar, que se ultrapassou um limite. Mas para o amante de Portugal, não parece haver limites. Se as medidas propostas violam a Constituição, que se ignore, que se mude a Constituição. Se o que Portugal é obrigado a fazer dói demais, faz sofrer demasiada gente, Portugal que aguente. Uma relação desta natureza deveria poder parar a qualquer momento, a pedido. Mas Portugal não tem o poder de mandar parar. Está inteiramente à mercê do seu amante.

 

Portugal é, portanto, vítima de violência doméstica. E, como é costume nestes casos, é ferido não só no corpo, mas também na alma. Racionaliza o que lhe acontece atribuindo a si mesmo culpas imaginárias, adoptando como seu o discurso e o argumentário de quem lhe quer e está a fazer mal. “Se me controla – pensa – é porque me quer bem; se me domina é porque me ama; só me pondo inteiramente nas suas mãos é que consigo retribuir-lhe o amor que me tem.”

 

É este género de relação que o Governo de Portugal estabeleceu com a potência hegemónica europeia; é neste género de relação que o Governo quer manter Portugal. Portugal, na pessoa do seu Governo, colabora activamente na sua própria tortura e na sua própria destruição. O Governo não o faz, insisto, porque descure, ignore ou despreze os seus deveres enquanto Governo. Pelo contrário, fá-lo na convicção de que é assim que Portugal deve agir para o seu próprio bem. O Governo, portanto, não merece que o odiemos; merece que tenhamos pena dele. Não merece que lutemos contra ele; precisa da nossa ajuda. A única maneira de o Governo, e Portugal, se salvar da relação abusiva em que se encontra aprisionado é voltando a ganhar um pouco de auto-estima, de respeito próprio, enfim, de coragem. Mas para isso é preciso que primeiro adquira um pouco de auto-conhecimento e auto-compreensão: que entenda uma vez mais que Portugal não é um país sem préstimo, mas que tem valor, e que merece ser amado e ajudado por aquilo mesmo que é – sem exigências extremas, sem estar submetido a padrões impossíveis e a regras auto-destrutivas.

 

O Governo é, portanto, inocente nos dois sentidos da palavra. Está livre de qualquer culpa, em virtude da sua própria ingenuidade. Foi esta mesma ingenuidade que fez que se entregasse a si e a Portugal a alguém que nos maltrata – e acabasse por ir colaborando nesses mesmos maus tratos.

 

Ou então fá-lo consciente e propositadamente, para benefício de outros que não aqueles que tem o dever de proteger.

 

Mas não. Isso seria demasiado obsceno para ser verdade.



Fábio Serranito às 18:23 | link do post | comentar

Terça-feira, 08.07.14

 

Não nos deixamos enganar pela realidade.

 

O espírito geral das classes urbanas portugueses mede-se, hoje em dia, com um barómetro. Literalmente, pela pressão. Pressão laboral, social, educacional, corporativa, económica, etc. E à medida que a pressão sobe nestes pontos, perdemos força anímica. Andamos a tentar coisas que se resumem a reabilitar a sociedade e, com ela, a nossa vida. Procuramos na acção política a medida do combate necessário. Das grandes manifestações de rua do início da crise à 'reforma' dos partidos políticos e ao surgimento de novos modelos de participação, tentamos todos ser moderados porque nos ensinaram que é na moderação que reside a virtude e que a democracia é mais ou menos isso: a moderação virtuosa. Apontamos o dedo, ainda hoje, aos exaltados (de esquerda, de centro ou de direita) e exigimos-lhe a justa medida do protesto pela estabilidade das nossas vidas. Recusamos liminarmente os extremismos porque fomos ensinados assim e temos tão bom senso que acreditamos não precisar de mais do que aquele que já temos (Descartes dixit). Andamos, assim, a ser embalados. E o sono tem sido confortável. Se ainda vai sendo é porque, como de qualquer bom sonho, não queremos acordar para a realidade.

 

Todos somos filhos de uma classe sem futuro histórico.

 

A desilusão das forças anti-democráticas no pós 25 de Abril, pelo caminho que a Revolução tomou, em nada tem que ver com os nossos actuais descontentamentos, embora tenham sido a sua expressão primeira. Se, pelo que digo acima, concordarmos que nos adaptamos todos muito bem a um regime social-democrata de índole capitalista (em que o primeira mantinha as aparências do que idealizavamos por princípio e o segundo introduzia o factor da perversão - porque era ele que continha o que desejavamos por ambição), então temos que concluir que nunca fomos, colectiva e individualmente, muito coerentes ou consequentes. Queriamos o melhor de dois mundos e ainda vivemos nessa ilusão. Por isso não temos, enquanto classe, futuro histórico. Porque fomos derrotados pelo individualismo, já não há classes.

 

Nem Sartre nem Aron. Somos todos Glucksmann. Ou como 'estas coisas de ismos já nem querem dizer nada'.

 

Não interessa se antes do 25 de Abril assinamos a folhinha da PIDE. Não interessa se no dia a seguir eramos perigosos maoistas. Até nos rimos dessas coisas. Somos, enfim, filhos dos nossos tempos. O que equivale a admitir que teriamos sido fervorosos inquisidores, perigosos jacobinos a espalhar o terror ou nazis, estalinistas ou trabalhistas consoante o espaço geográfico. Hoje em dia somos pela 'coisa'. Hoje em dia somos os tais 'nacionais-porreiristas' em que à força de sermos contra tanta coisa acabamos por ser a favor de coisa alguma. Ou, sendo a favor de tudo (regra geral, do último que fala), estamos pela situação. Estamos então ali no meio, como o Glucksmann, a juntar as mãos de Sartre com as de Aron. Só que hoje em dia já não existem nem Sartres nem Arons, apenas Glucksmanns. Hoje em dia reinam, bicéfalos, o pragmatismo e o situacionismo.

 

O sol brilhará para todos nós!

 

Os amanhãs que cantam chegaram há muitos anos. Todas as manhãs são boas para acreditar no sonho americano dum enriquecimento rápido e sólido. A revista Kapa pode ter acabado mas nunca houve tanto Yuppi a bater punho. Com empreendedorismo e mérito o céu é o limite. O sonho vende-se como a Coca-Cola e vicia como o tabaco. Em alternativa renova-se a esperança a cada raspadinha ou a cada sorteio do Euromilhões. E assim, construimos uma colectividade de individuos que ficam à espera da sua vez. Já todos nos julgamos apenas credores da sociedade. Mesmo os que fazem política e se julgam, de algum modo, os únicos intervenientes dignos na coisa pública.

 

Paris brûle-t'il?

 

Mas não nos enganemos no que concerne a perspectivas mais ou menos pessimistas da realidade. As coisas sempre foram mais ou menos assim. O famoso 'pantano lamacento' ou como Pepe prefere olhar para o esgoto do que para as gordas dos jornais. Mas também é escusada a perspectiva candida do bem que, individualmente, as pessoas bem intencionadas acreditam acrescentar à política. São absolutamente desnecessárias e esse exercício só as ajudará a adaptarem-se, mais rapidamente, à realidade. É, como foi para os nossos pais, o mesmo que ter ido à tropa. De resto duvido que os sistemas se regenerem. O nosso, está claramente a colapsar. Paris, não se enganem, já arde.



José Borges às 12:20 | link do post | comentar

Sábado, 21.06.14

 

Há uma certa parte da esquerda moderada, militante no PS e em partidos da família política do PS, a que podemos chamar de ‘terceira via’ (ou, na minha opinião, seria mais correcto chamar ‘direita que milita em partidos de esquerda’), que insiste em não perceber o que se está a passar à sua volta, muito à imagem da direita propriamente dita.

 

Se na direita o objectivo é claramente o de defender uma ideologia ao serviço do Capital com falsos pretextos, no caso desta ‘esquerda’ não se percebe se é uma fidelidade cega a uma perspectiva ideológica (que também justifica a adesão de alguns bem-intencionados ao neoliberalismo), se é apenas ingenuidade ou falta de compreensão da realidade, ou se, ultrapassando-nos a todos pela esquerda, é a materialização de uma perspectiva Leninista de infiltração nos partidos de esquerda por parte das ideias de direita. Seja qual for o caso este não é mais aceitável deixar essas ideias sem contraditório claro.

 

Vem isto a propósito de um texto (que eu pensava ser recente, mas foi apenas recentemente recuperado no contexto da actual disputa no PS) do expoente máximo, e mais orgulhoso, da terceira-via na direcção nacional do PS, João Ribeiro. Eu reconheço qualidades intelectuais e políticas ao João Ribeiro, tal como reconheço a Vítor Gaspar, mas não posso deixar de achar que ele está errado em toda a linha, tal como está Vítor Gaspar.

 

 

 

 O João Ribeiro pretende mostrar-nos um quadro em que todos os partidos socialistas na Europa estão a definhar, ao contrário do nosso PS, por não conseguirem fazer, como Seguro conseguiu entre nós, uma modernização dos seus programas políticos, mantendo-se agarrados “uma agenda conservadora sem sentido da história”, assente “exclusivamente na defesa dos sectores mais tradicionais do Estado Social de sucesso que construíram”. Contrapõe o nosso projecto de Blair que a esquerda tem de saber defender “uma nova agenda de modernidade” que “abraça uma realidade de serviço público multidimensional, mais flexível aos interesses criticamente apreendidos por uma nova geração de cidadãos autónomos”. As palavras definidoras do que deve ser a ‘nova esquerda’ (na sua enésima encarnação) são suficientemente vagas para toda a gente nelas se rever sem dificuldade, à semelhança do que costuma fazer discursivamente também a direita, mas nos últimos anos todos nós já conseguimos aprender o que estes eufemismos significam: privatização, liberalização, desregulação.

 

João Ribeiro dá-nos vários exemplos deste conservadorismo que conduziu a péssimos resultados: a Alemanha, do SPD que está no governo com a direita e foi antes governado por Schroder; a França, governada pelo Hollande que prometera atacar a finança e atacou as finanças públicas; a Grécia, na qual o PASOK abraçou o programa de austeridade com prazer e se tornou na muleta da direita; a Espanha, em que Zapatero foi apenas mais um dos muitos seguidores de Blair, que dominaram a família política europeia dos Socialistas nas últimas duas décadas; e a Suécia, onde o declínio eleitoral dos Socialistas desde 1990 tem acompanhado a sua adopção de políticas de inspiração neoliberal (como a abertura a uma maior intervenção privada na educação que não tem dado assim tão bons resultados). Acresce a todos este conservadorismo que, em quase todos (se não mesmo todos) estes casos, têm aparecido dissidências à Esquerda nos Socialistas (França, Alemanha, Espanha e Grécia) ou têm sido reforçadas as votações em outros partidos mais à esquerda (Grécia, Espanha e Suécia). Aliás o próprio João Ribeiro reconhece que “Na Alemanha apenas dois anos depois da longa governação do pragmático Schroeder, apareceu o Die Linke, recheado de dissidentes do SPD”, na França “Em 2008, o PSF assistiu também a uma cisão com a criação por um seu dissidente do Parti de Gauche”, não falando nos aumentos de votação dos partidos à esquerda dos Socialistas, como no caso do Syriza na Grécia, porque talvez fosse demasiado ostensivo.

 

Ou seja: depois de anos de neoliberalização dos partidos Socialistas que provocaram uma fuga de votos (e a criação de partidos) à esquerda, a solução apontada pela terceira-via é que ainda não fomos longe o suficiente e um bocadinho mais de ‘refrescamento’ neoliberal é mesmo aquilo que precisamos. Mais uma vez, aqui está replicado o mágico raciocínio da (restante?) direita: depois de décadas de reformas no sentido de liberalizar e privatizar a economia, que conduziram à crise em que estamos, aquilo que estamos mesmo a precisar é de mais um bocadinho de neoliberalismo para resolver todos os nossos problemas.

 

Entretanto perante o evidente falhanço da terceira-via, os que defendem esta visão continuam alheados da realidade e apelidando todos os outros de conservadores por ainda não se terem completamente rendido às ideias da direita, enquanto a família política Socialista Europeia, inspirada por estas ideias, continua no seu caminho para o suicídio ideológico, na cama com a direita Europeia.

 

Esta ‘esquerda’(?), tal como a direita, analisa a história recente recorrendo à falácia de Petitio Principii: assumem que a terceira-via é a solução de todos os problemas, tal como a direita assume em relação ao neoliberalismo, analisam toda a história de falhanço da terceira-via nas últimas décadas como causada pela insuficiência de uma mais vigorosa terceira-via, como a direita faz com o neoliberalismo, e acabam por concluir a sua hipótese de base de que a solução de todos os nossos problemas é mais terceira-via, ou mais neoliberalismo no caso da direita. No fim, neoliberalismo ou terceira-via acabam por ser mais ou menos a mesma coisa…

 

É caso para perguntar a João Ribeiro: na sua visão “Seguro Salvou o PS” de quê? De ser Socialista?

 

Enquanto nós estamos a ser dominados (e ‘empatados’) por quem aparentemente comete os mesmos erros de raciocínio que a direita (seja qual for a razão para isso), esta continua a prosseguir com um extraordinário sucesso o seu verdadeiro objectivo: “Crise tirou 3,6 mil milhões aos salários e deu 2,6 mil milhões ao capital”



Gonçalo Clemente Silva às 20:13 | link do post | comentar


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