Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2012

E terminou o programa Câmara Clara, de forma tão desarmante. Após quase sete anos de emissões (2006-2012) de permanente divulgação, promoção e debate de ideias, conhecimento e actividades artísticas, num formato de conversa livre e livre pensamento, que trouxe para fora do ecrã esse debate entre os cidadãos, num espaço tão comum como é uma mesa de café, num tempo em que a existência de algo é definida no mesmo ecrã de onde surge o Câmara Clara, e um conjunto infindável de programas inúteis uns, estupidificantes outros, de fim embrutecedor muitos.

 

De “A Câmara Clara” de Roland Barthes, surgiu a ideia do formato do programa, e como numa fotografia, num fotograma, no qual atentamente tentamos identificar os personagens e os objectos, interpretando o que estará a acontecer, o que estará o personagem a pensar, uma fotografia ou um fotograma, contêm muito do que não é expresso ou visível. Cada edição do programa era assim. Talvez tenha sido isso o que a todos nos quiseram subtrair.

 

Contudo, e como oportunamente no final nos lembrou Paula Moura Pinheiro, a apresentadora do programa, este termina mas a literatura continua. Contínua, continua a criação e a recriação, e continuam os artistas, e as suas formas de contornar os obstáculos dos regimes e dos seus mentores, assim como continuam os pensamentos por mais livros e obras que os tiranos queimem ou destruam, permanecendo as interrogações.

 

«Nem sei perseverar assim, nem que fazer entretanto,

Nem que dizer, pois para que servem poetas em

                                                                 tempos de indigência?»

 

Friedrich Hölderlin,  "O Pão e o Vinho

 

«Para que servem poetas 
em tempos de penúria?

Para que servem poetas?

Para que servem 
tempos de penúria?

Para que servem?

Para que servis?

Para que servem servos?»

 

Adília Lopes

 

«Para quê, perguntou ele, para que servem

Os poetas em tempos de indigência?

Dois séculos corridos sobre a hora

Em que foi escrita esta meia linha,

Não a hora do anjo, não: a hora

Em que o luar, no monte emudecido,

Fulgurou tão desesperadamente

Que uma antiga substância, essa beleza

Que podia tocar-se num recesso

Da poeirenta estrada, no terror

Das cadelas nocturnas, na contínua

Perturbação, morada da alegria.»

 

Hélia Correia, "A Terceira Miséria".

 

O espaço antes ocupado está agora vazio, ou então o que o ocupa não é palpável, nem pode ser capturado por duas mãos, por mais força que tenham.

 



publicado por Gabriel Carvalho às 02:09 | link do post | comentar

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