Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2013

Hoje Portugal ‘foi aos mercados’. A república Portuguesa conseguiu vender 2500 milhões de euros em dívida pública com uma taxa de juro de 4,891%. Isto são, indesmentivelmente, boas notícias. Não significam o fim da austeridade nem dos cortes brutais no nosso estado Social, não significam mudanças fundamentais para os cidadãos Portugueses que continuam com dificuldades, mas são boas notícias.

Com estas notícias o Governo (e respectivos apêndices parlamentares) reclamou vitória, falou do ‘colossal’ sucesso do nosso programa de ajustamento, do excelente trabalho do Governo e de quão perto estamos agora de conseguir ter o FMI ‘de aqui para fora’ e recuperar a nossa soberania (e de caminho o nosso orgulho ferido). Ora, na sua maioria, o sucesso desta operação depende pouco do Governo que a única coisa que tem para mostrar é uma consolidação orçamental incipiente, uma dívida pública nos 120% do PIB (notícia também de hoje, mas a que ninguém ligou nada, agora já não importa, os mercados parecem já não estar obcecados com a dívida pública) e uma brutal recessão que tornam a nossa solvência financeira cada vez mais uma miragem. O grande responsável é o BCE que se disponibiliza a comprar no mercado secundário (ou seja a quem nos comprou a dívida) a nossa dívida pública enquanto continuarmos a fazer o que eles dizem. Ou seja, o FMI pode sair do país que a austeridade está para durar. Ainda assim são boas notícias, é melhor do que não termos conseguido, mesmo nestas condições, colocar dívida pública nos mercados financeiros.

Portanto, apesar de tudo parece que o saldo do dia é positivo, do mal o menos.

 

Este era o raciocínio que eu tinha feito para mim mesmo quando fui jantar, acontece que enquanto eu jantava a senhora Secretária de Estado do Tesouro estava a dar uma entrevista e eu tive um daqueles momentos ‘diz-me, por favor, que estás a gozar’, já vos aconteceu de certeza. De forma simples, o que a Senhora Secretária de Estado do Tesouro disse foi que nós fizemos esta operação de financiamento de forma a dar um sinal claro de que éramos capazes e, perante a insistência do jornalista, ela explicou que não tínhamos necessidades de tesouraria ou de financiamento mas que ainda assim decidimos fazer esta operação.

 

Ou seja, se eu entendi bem o que a senhora disse, a república Portuguesa ‘foi aos mercados’ pedir um empréstimo, pelo qual vai pagar juros, de dinheiro de que não precisa com o único objectivo discernível de permitir ao Governo anunciar com pompa e circunstância que é capaz de o fazer. Para ser mais claro, o Estado, ou seja, todos nós, vai pagar um pouco mais de dez milhões de euros por mês em juros por dinheiro de que não precisa para que o Governo possa fazer um brilharete.

Tenho de conceder que, de facto, este é um dos golpes de marketing político mais eficazes que tenho visto, mas é também, seguramente, um dos mais caros.

Isto, meus amigos, não tem outro nome, é simplesmente a Twilight Zone…



publicado por Gonçalo Clemente Silva às 20:59 | link do post | comentar

Catarina Castanheira

Fábio Serranito

Frederico Aleixo

Frederico Bessa Cardoso

Gabriel Carvalho

Gonçalo Clemente Silva

João Moreira de Campos

Pedro Silveira

Rui Moreira

posts recentes

Entre 'o tudo e o nada' n...

Le Portugal a vol d'oisea...

Recentrar (e simplificar)...

Ser ou não ser legítimo, ...

O PS não deve aliar-se à ...

(Pelo menos) cinco (irrit...

Neon-liberais de pacotilh...

Piketty dá-nos em que pen...

Ideias de certa forma sub...

Ideias de certa forma sub...

arquivos

Janeiro 2016

Outubro 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012