Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2013

Havia uma casa abandonada nos arredores de P. Uma casa grande, apalaçada, de inícios do Século XX. Os espaços abandonados exalam um qualquer odor de chamamento que nos leva a saltar muros e, por vezes, a forçar janelas. Acontece que as portadas da cozinha, no rés-do-chão das traseiras, encontravam-se abertas, e os vidros partidos permitiram-me abrir a janela sem causar estertor em volta. Apenas os melros que circundavam haviam levantado voo com a minha chegada. No interior, uma casa grande de estuques ricamente trabalhados mas perfeitamente abandonada, vazia, velha e desinteressante. Só no primeiro andar, numa divisão com vitrais a deitar cores bruxuleantes pelas estantes, livros e livros esperavam a minha chegada. Os herdeiros, ricos economistas e consultores da capital, lá longe, haviam feito a selecção do que eles eloquentemente apelidaram de bens fungíveis, esquecendo-se propriamente dos únicos objectos que sendo valorizáveis não tem preço. A propriedade há-de ser sempre o roubo. Menos quando é resgate. Quando aqueles homens britânicos caminhavam entre os escombros e destroços da biblioteca da Holland House de Londres depois dos bombardeamentos alemães, o que eles verdadeiramente faziam era continuar a civilização depois da barbárie. Todo o tempo tem o seu modo. Neste, que é o nosso, a caridade não é o caminho, antes o resgate. O resgate pelo único princípio de que a cultura e, com ela, a literatura, sempre terão quem as livre do fogo. Agora sim, a casa está vazia. Agora sim, a casa pode ruir.


*Publicado na revista Ler deste mês de Fevereiro de 2013



publicado por José António Borges às 19:31 | link do post | comentar

1 comentário:
De:

Data:
7 de Março de 2013 às 00:22


Comentar post

Catarina Castanheira

Fábio Serranito

Frederico Aleixo

Frederico Bessa Cardoso

Gabriel Carvalho

Gonçalo Clemente Silva

João Moreira de Campos

Pedro Silveira

Rui Moreira

posts recentes

Entre 'o tudo e o nada' n...

Le Portugal a vol d'oisea...

Recentrar (e simplificar)...

Ser ou não ser legítimo, ...

O PS não deve aliar-se à ...

(Pelo menos) cinco (irrit...

Neon-liberais de pacotilh...

Piketty dá-nos em que pen...

Ideias de certa forma sub...

Ideias de certa forma sub...

arquivos

Janeiro 2016

Outubro 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012