Sexta-feira, 22 de Março de 2013

 

A democracia formal não é baseada apenas em eleições e liberdade de expressão. Envolve todo um conjunto de instituições e práticas que reflectem a ideologia dominante, as ideias hegemónicas e a sua linguagem. Neste sentido, a comunicação social é por excelência um dos seus veículos. Não há como negar o papel fulcral dos media na emanação de poder e na formação da opinião pública, especialmente a televisão. A superestrutura também é feita pelos comentários de domingo à noite.

A contratação de José Sócrates para um comentário semanal na RTP levantou inúmeras questões. Várias com raízes partidárias, demagógicas e populistas camufladas de indignação como se os meus impostos também não pagassem o salário de Dias Loureiro, conselheiro económico do Governo, ou também não fosse dado tempo de antena a antigos governantes que deixaram saudades apenas ao seu círculo de companheiros e companheiras. Da minha parte preocupa-me o critério da representatividade que não tem transposição dos votos para o pequeno ecrã. O arco da governação continua o opinion-making habitual sem qualquer respeito pelos eleitores e eleitoras dos restantes partidos, aspecto facilmente visível em período de campanha eleitoral. 

As disputas por este aparelho ideológico ocorrem no centro e à direita, o espectro do poder económico, financeiro e político. A esquerda está sub-representada e limitada na sua capacidade de influenciar o sentido do voto e a consciência daqueles que participam politicamente. Continuaremos a ser atingidos verbalmente por conceitos como capital humano, os mercados ou o crescimento negativo da economia na boca de Camilo Lourenço, Marcelo Rebelo de Sousa e outros sem que da nossa parte possa haver resposta. A saída de Alfredo Barroso da Sic Notícias foi disso exemplo. 

A democracia é do povo, segundo dizem. Este deveria então sentir-se representado politicamente nos canais que formam a nossa opinião política e, consequentemente, a nossa idiossincrasia. Em vez disso assistimos a uma marginalização dos pequenos partidos e a uma tentativa de silenciamento dos que pretendem contrariar, pela via contra-hegemónica, as ideias que apoiam o modelo socioeconómico vigente.

 

 

 



 



publicado por Frederico Aleixo às 20:22 | link do post | comentar

2 comentários:
De Anónimo a 23 de Março de 2013 às 18:01
Quem diria, actualmente em regime de democracia (III Republica), usar-se um texto dum livro com entrelinhas para um regime de ditadura (II Republica).


De Frederico Aleixo a 23 de Março de 2013 às 21:33
Sem entrar em comparações, não nos enganemos em relação aos paralelismos possíveis de estabelecer entre a II República e a III República. Contudo, a luta pela hegemonia no campo das ideias, essa é intemporal. A luta pelos holofotes é um dos métodos.


Comentar post

Catarina Castanheira

Fábio Serranito

Frederico Aleixo

Frederico Bessa Cardoso

Gabriel Carvalho

Gonçalo Clemente Silva

João Moreira de Campos

Pedro Silveira

Rui Moreira

posts recentes

Entre 'o tudo e o nada' n...

Le Portugal a vol d'oisea...

Recentrar (e simplificar)...

Ser ou não ser legítimo, ...

O PS não deve aliar-se à ...

(Pelo menos) cinco (irrit...

Neon-liberais de pacotilh...

Piketty dá-nos em que pen...

Ideias de certa forma sub...

Ideias de certa forma sub...

arquivos

Janeiro 2016

Outubro 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012