Terça-feira, 26 de Março de 2013

Nenhum regime sobrevive ao desencanto e às frustrações de toda uma Juventude em fúria. A melhor maneira de preparar alterações e mudanças políticas será sempre a de contrariar e atacar os sonhos da Juventude. Este texto é pouco poético, e não entende o seu autor ser a Juventude uma entidade abstracta de cariz heróico e revolucionário que existe como um todo para salvar o mundo dos seus tiranos e fazer a sociedade entrar numa senda de progresso e evolução social imparáveis. Pelo contrário. Os jovens são, na maior parte das vezes, os primeiros a trairem as responsabilidades a que os seus sonhos e projectos os obrigavam um tempo antes. Antes de ser preciso violar consciências para ter a certeza que a vida correrá bem. Ora, os tempos em que vivemos são proveitosos para quem dorme bem sem escrúpulos e consciência. Eis o motivo pelo qual vemos as grandes fortunas crescerem desmesuradamente enquanto o resto inteiro da sociedade empobrece infalivelmente e os cidadãos viram-se uns contra os ouros.

 

Numa democracia em ruínas, ou o que nos restam delas, alienada como um património colectivo passível de saldar dívida pública, as armas que nos restam deixam de ser o voto e a palavra ordeira e entramos numa euforia de raiva e mágoa que faz o cidadão comum querer atacar inclusivamente as poucas instituições capazes de nos salvarem da barbárie capitalista. O discurso pode parecer cheirar a mofo. Cheira efectivamente. Cheira porque convencidos de um modelo capaz de nos levar a todos para um patamar de bem estar sem retorno, prescindimos dos nossos valores e da vigilância devida a quem se deveria lembrar persistentemente que não há dados adquiridos nos avanços civilizacionais. Já não basta falar de República e dos seus valores a dirigir a administração dos bens públicos, é preciso resgatar um vocabulário neo-marxista a lembrar aos mais descrentes que se não estamos a falar de luta de classes estamos a falar de classes em luta ou prontas para isso.

 

Já não basta queixarmo-nos do discurso economicista capitalista a apropriar-se do discurso político, como aquelas plantas aquíferas que contaminam ecosistemas inteiros ou como as mimosas, espécies invasoras, que carcomem e destroem os habitats saudáveis e equilibrados de outrora. É preciso que as nossas ideias tomem o poder. Tomar o poder significa apropriarmo-nos do discurso dominante, desconstruí-lo ou simplesmente destruí-lo e organizar um poder soberano das ideias. O poder das ideias, como proclamou Isahia Berlin, que a par de Raymond Aron, ambos pensadores de uma direita honesta e útil, ajudaram a construir o nosso sonho durante décadas. 

 

É preciso pois restabelecer a democracia por inteiro e não uma de fachada, a mais perigosa de todas. É preciso identificar os inimigos e não ter medo da guerra, pois é ela que forma os espíritos. É preciso não ter medo, sobretudo, da acção indisciplinada mas disciplinadora do poder e do seu exercício. Voltemos atrás e sejamos os homens que combatem. Desçamos dos montes e das serras e das colinas e armados com palavras, explodamos em harmonia pela reorganização das instituições. Não basta evocarmos o espírito da carbonária, é preciso que todos os que se sintam livres para isso a incorporem.

 

Todos os poderes, mesmo os democrático, tentam criar cidadãos ordeiros e pacíficos. Fazem-nos acreditar que é errado e injusto insurgirmo-nos fora das urnas de voto. Acontece que como seres políticos que somos não nos cansamos de ser homens na cidade. Somos espíritos livres mas pacíficos, e não procuramos o conflito nunca. Como agora, ficamos à espera que ele venha ter conosco. No fim, vencemos sempre, pois ao canalha dizemos: 'os velhos tiranos de há mil anos, morrem como tu'.

 



publicado por José António Borges às 16:04 | link do post | comentar

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