Sábado, 27 de Abril de 2013

Até ao dia 25 de Abril de 1974, jovens soldados partiam saudando famílias e amores no cais, que de pé largavam as lágrimas e seguravam nos braços os sonhos desses jovens que subiam o pontão com medo e ansiedade incontida, ante o espectro da morte nessas barcas, grandes navios com Caronte ao leme. Até entrarem nos navios da guerra estúpida, os jovens mancebos de ouro pobres e da boémia do botequim e salões da cidade desconhecedores, apenas estavam habituados a erguer a força do trabalho na terra e pela pedra, e algum copo de vinho carrascão no boteco.

 

As barcas já não pesavam tanto. Os sonhos ficavam em terra. Os jovens doravante seriam cartas que a guerra entregará assim que poder, no intervalo do barulho ensurdecedor das armas, que para sempre aparecerá aterrorizando as noites compostas de cheiros a pólvora e capim. Mesmo confortados com a mão firme e a voz de comando, sobre cantos libertadores de depois do adeus, de outros jovens, capitães da liberdade e da esperança, para aqueles a guerra estúpida em nome dos vis abutres insidiosos, nunca acabaria.

 

Hoje, 25 de Abril de 2013, os cais são os de embarque nos aeroportos e dos autocarros - quando o dinheiro, o único que resta, só para estes dá -,  e estão ocupados pela nova geração de jovens soldados, da nova era da desesperança e descrença, numa história que se repete com os matizes e as nuances de um tempo presente. Escadas e tapetes rolantes, ou corredores simples, são pontões onde não passam seus sonhos, provavelmente os mesmos que não seguiram para aquelas guerras estúpidas.

 

De um lado famílias e amores com as lágrimas que despenham, e sonhos depositados nos braços que a qualquer custo seguram todo o seu peso. Um passo atrás das famílias e amores, os corpos nítidos dos invisíveis homens de fato e gravata cinzento quase negro, sapatos elegantes - e já não botas pretas -, sem chapéu na cabeça ou nas mãos, luvas brancas e pin-na-lapela de cores que parecem fortes, e vistas de perto estão desbotadas e sem sentido, quase cinzento negro. Um passo atrás das famílias e amores, que abraçam os sonhos mortos-vivos, tais homens sem sangue e cinzentos empurram, com as luvas brancas ansiosas de lixívia, os novos soldados mancebos, de diploma ou certificado possível na mão, como arma usada com melindre.

 

Um país outrora orgulhoso, de epíteto o progressista, por poder dar aos seus filhos, o que os seus pais não tiveram, declara agora guerra ao seu povo, e é logo seguido por aliados perfilados, ciosos do lucro da guerra, dos despojos e saque ansiosos.

 

No pontão, olhos marejantes indistintos, cor de medo e angústia, caminham em via estreita, na direcção do vazio das suas batalhas nas guerras dos outros. Ao longe os sonhos são já quimeras.



publicado por Gabriel Carvalho às 02:10 | link do post | comentar

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