Sábado, 4 de Maio de 2013


O anúncio de novas medidas por parte de Passos Coelho não constituiu em si uma grande surpresa. A insistência na austeridade pela via dos ataques à função pública e aos reformados já havia sido denunciada pelas tipografias da imprensa portuguesa. Sobrava apenas a curiosidade quanto ao texto e o enquadramento. O arqui-inimigo guardião do constitucionalismo foi o primeiro a ser visado como responsável pelo agravamento dos cortes no sector público; seguiu-se a responsabilidade perante os compromissos europeus e a venda de um moinho de vento a que os técnicos denominam de "fase pós-troika". Diante de tamanha preocupação com a saúde económica portuguesa, ficou por saber o motivo pelo qual o primeiro-ministro tanto queria se equiparar à Irlanda. Depois de confirmar dados estatísticos, apesar de Portugal ter iniciado o seu programa de ajustamento cerca de meio ano depois, apercebi-me que são países cujos resultados, embora não sejam idênticos, são próximos nas suas consequências sociais. Observemos alguns dados do FMI. Estes foram obtidos através de fontes fidedignas e oficiais, apesar dos números alusivos a 2012 referentes à dívida  pública irlandesa em percentagem do PIB, o PIB português a preços constantes e a taxa de desemprego portuguesa serem fruto de estimativas de técnicos especializados conforme consta na legenda.

Aqueles que são considerados casos de sucesso por parte dos organismos que compõem a Troika, nem por isso apresentam um quadro digno de tanto optimismo - sentimento aliás, alimentado pela ânsia de acertar na fórmula da austeridade -, nem parecem configurar exemplo a seguir. Tanto Portugal como a Irlanda assistiram a uma subida significativa da sua dívida pública. Se no primeiro caso, em 2010, a sua dívida pública correspondia a 93% do PIB, em 2012 esta ascendeu aos 123%; por sua vez, a Irlanda no que concerne à mesma variável e o mesmo horizonte temporal, passou de 92% a 117%. Em relação à taxa de desemprego, ambos terminaram 2012 com números alarmantes, já que Portugal verificou uma subida de 6% em relação a 2010; conquanto, no caso irlandês, ainda que a taxa não tenha disparado como a homóloga portuguesa, parece excessivo falar-se em sucesso num país com 14,7% de desempregados. As semelhanças entre ambos os casos parece terminar com a evolução dos valores do Produto Interno Bruto a preços constantes. Com efeito, enquanto o PIB irlandês cresce, o português encolhe. No entanto, este variação tida como positiva esconde uma outra realidade bem presente neste estudo. Segundo o Central Statistics Office, existem neste momento mais de 700 mil irlandeses em risco de pobreza no país (16%), estando o orçamento de muitas destas famílias dependente das transferências sociais. Visto que o estudo só abrange até 2011 e os Orçamentos de Estado da Irlanda para 2012 e 2013 comprometeram-se em cortes significativos na Segurança Social, os efeitos no empobrecimento da população podem atingir uma dimensão bastante preocupante.

Então de que Irlanda fala a Troika? A Irlanda que ruma favoravelmente aos mercados mas atomiza a sua sociedade. É por isso que somos convizinhos. Nesse caso, o Governo cumpre bem o seu papel como capataz da União Europeia e do FMI. Os memorandos sempre tiveram os mesmos objectivos: sacrificar o crescimento e os direitos dos cidadãos e cidadãs, supostamente em nome de uma dívida que não pára de crescer. Mas entretanto a banca salvou-se, foram privatizados serviços públicos e reduzido o peso do Estado na economia. Os salários foram reduzidos e as leis laborais flexibilizadas. Já para não falar na Europa a duas velocidades. Afinal, a austeridade funciona mesmo.






publicado por Frederico Aleixo às 23:30 | link do post | comentar

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