Terça-feira, 23 de Julho de 2013

Conta a história, num dos seus momentos, que aquando de uma das comemorações do dia da Raça, na Espanha franquista saída da guerra civil, na Universidade de Salamanca, o filosofo e reitor desta, Miguel de Unamuno e o General Milan Astray, fascista do regime da falange e aleijado de guerra, se defrontaram numa aterradora troca de palavras, em que este último saudava a morte e decretava morte à inteligência. Estavam portanto, de um lado a inteligência, por aqueles dias acantonada, e do outro, a morte, como programa político. Um confronto exemplar na oposição, da guerra que vivemos, a económica, que derruba, sob efeitos colaterais e convenientes, a inteligência e a capacidade de reconstruir e regenerar da democracia e dos elementos do dia-a-dia do bem-estar dos povos.

 

Para muitas das livrarias e alfarrabistas - a inteligência -, a nova lei do arrendamento urbano, com particulares consequências em Lisboa e no Porto, foi o estertor a anteceder a morte, que a crise económica e a ausência de recursos trouxe.

 

É do estertor da Livraria Sá da Costa que se fala, no ano em que comemoramos o seu centésimo aniversário, celebrado há pouco mais de um mês, curiosamente no dia de Portugal, 10 de Junho. A Sá da Costa atravessou a República, as evidentes limitações do tempo da Ditadura, e a Democracia, da crença no rejuvenescimento e fortalecimento desta, com garantias públicas de estar consolidada - paradoxo curioso para este tempo de agonia da inteligência, tão espelhada no fecho da Sá da Costa.

 

Promotora e divulgadora de conhecimento, a Sá da Costa é espelho também deste tempo e do mundo ocidental - onde está esta praia lusitana -, um mundo que uniformiza sob o signo da economia e do capitalismo, suprimindo a liberdade, capaz dos maiores e melhores feitos que a Humanidade dispôs, em que o conhecimento, as artes e a cultura arborizam-se e permanentemente constroem, mas ainda o mesmo que rapidamente atinge o cúmulo da barbárie.

 

Para bem e para o mal, o mundo ocidental, também uniformizou a duração ideal da vida, os cem anos, em que chegando-se à meta, já nada resta, como parece que acontecerá com a Sá da Costa. No triste momento em que o país mais dela precisava, com a sua inteligência, a sua memória, matéria e imatéria, que melhor podem sedimentar a cultura daquele mundo, transformando, com maior rapidez que, por exemplo, os sedimentos tornados petróleo ao longo de milhares de anos, riqueza do insustentável mundo ocidental, mais os seus males do capitalismo.

 

Viva a inteligência, abaixo a morte!

 



publicado por Gabriel Carvalho às 12:22 | link do post | comentar

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