Segunda-feira, 23 de Setembro de 2013

 

 

Confesso que ultimamente sinto uma grande estranheza em relação às análises feitas nos média mainstream, o mais recente caso é sobre as eleições na Alemanha.

 

Merkel ganhou as eleições, isso é indesmentível, ainda assim não compreendo como é que os resultados são vistos como uma grande vitória da CDU/CSU e, muito menos, como uma grande vitória da estratégia Alemã de gestão da crise na Europa. Os resultados simplesmente não se enquadram nessa leitura.

 

A CDU/CSU de Merkel subiu 7,8 pontos percentuais é um facto, mas isso esconde outro facto mais relevante: em virtude da queda em 9,8 pontos percentuais do FDP, parceiro na coligação de Governo, o total de votos nos partidos que suportavam o actual Governo (e a actual política) caiu 2 pontos percentuais; dificilmente se pode ver isto como um apoio maciço à política seguida.

 

Merkel conseguiu, isso sim, afirmar-se com a líder incontestada de todas as direitas Alemãs e dos partidários da Austeridade, dificilmente uma surpresa quando essa associação é permanente desde o início da crise do Euro. Merkel esvaziou completamente toda a Direita à sua volta, mas não conseguiu, pelo contrário, um reforço do apoio à sua política. Se houve alguém que perdeu as eleições não foi quem quer outro rumo para a Europa, mas quem (como o FDP) quer o mesmo rumo sem assumir a completa subserviência a Merkel.

 

Esta eleição, saindo do primarismo das análises feitas maioritariamente desde ontem, tem alguns dados importantes que não podem ser ignorados. Desde logo existirá agora no Parlamento Alemão uma maioria de Esquerda. Sim, que a vitória apontada a Merkel foi tão real que a Direita perdeu de facto as eleições. Um segundo facto que não pode ser ignorado é que o conjunto dos partidos que defende o fim do Euro tal como ele existe hoje alanca quase 15%, só não tendo uma maior importância real por o AfD (partido de Direita Euro-céptico) ter ficado a alguns milhares de votos da barreira de entrar para o Parlamento. Ter quase 15% de eleitores Alemães a não querer esta moeda única não pode ser ignorado.

 

Com estes resultados a única razão pela qual não haverá um Governo sem Merkel na Alemanha é o triste facto do SPD preferir um entendimento com a Direita do que com outros à sua Esquerda. É muito relevante (e ainda mais preocupante) que a imprensa internacional dê mais credibilidade à entrada dos (literalmente) Neonazis do Golden Dawn para um futuro Governo Grego do que à possibilidade do Die Linke (até mais moderado do que os autóctones PCP e BE) vir a integrar uma coligação com o SPD.

 

Estas eleições correm o risco de se tornar históricas. Não porque Merkel tenha sido massivamente apoiada, mas porque na sua sequência (e depois da desilusão com Hollande) se pode dar o enterro definitivo da Social-Democracia Europeia, com a antecipada grande coligação SPD-CDU/CSU. Não é compreensível para ninguém de Esquerda que o SPD, herdeiro de Schröder, tenha mais facilidade em se aliar com a CDU/CSU de Merkel do que com o Die Linke, herdeiro de Oskar Lafontaine, ex-Ministro das Finanças de Schröder e ex-líder do próprio SPD.



publicado por Gonçalo Clemente Silva às 23:38 | link do post | comentar

1 comentário:
De Maquiavel a 25 de Setembro de 2013 às 08:13
Assim é, Gonçalo. Tal e qual.
Estava a ver que era só eu a perceber o que aconteceu. Comecei a duvidar da minha sanidade mental e capacidade analítica até ler o teu artigo. Obrigado!

Sim, näo esqueçamos que o Die Linke é herdeiro de Oskar Lafontaine, ex-Ministro das Finanças de Schröder e ex-líder do próprio SPD (como tal até foi candidato a Chanceler em 1990, e foi por causa da sua estratégia de afrontar directamente a CDU de Kohl que o SPD ganhou as eleiçöes de 1998, embora depois näo o tenham nomeado para Chanceler, ficando "apenas" como Ministro das Finanças).

Mais curto e grosso, mas na prática o mesmo resultado da análise:
http://www.inacreditavel.pt/?p=20576


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