Terça-feira, 16 de Outubro de 2012

«A litania da penitência sempre procurou obstáculo à contestação. É assim no campo religioso e é assim no campo político.», disse Agustina Bessa-Luís em Crónica do Cruzado Osb.

 

Dos melhores pensadores e do labor dos exímios organizadores da ordem e do sentido das palavras, nascem as melhores histórias. Dessas saem algumas expressões, feitas citações sempre à mão para certos momentos. Estas, as citações, correm constantemente dois riscos: desvirtuarem o sentido da vontade do criador ou, por outro lado, limitarem o alcance e a dimensão do excerto, diminuindo-o na sua acção interventiva e até condição civilizadora. Não é pois por reserva que não indico o número da página do excerto escrito por Agustina, é antes por exercício objectivo da reflexão. E também pela sua adequação a um certo e determinado episódio.

 

Agustina, em definição de si própria, chamou-se “pensadora entre as coisas pensadas”, com tudo o que tal significa de humilde mas sublime e supremo, e quando pensou e registou o excerto que citei, talvez não estivesse a reflectir acerca do posicionamento da Igreja Católica Apostólica Romana perante a consciência e a liberdade cidadã na adesão e vontade participativa em manifestações e protestos populares.

 

Salvaguardando a totalidade do que foi dito por José Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa, indivíduo esclarecido, de quem deduzo professar a doutrina social da igreja, repugna-me a conclusão a que chega no seu estudo constitucional, e deste não retire o que contém de equilíbrios, sobretudo os não inscritos nas atribuições e competências dos órgãos da República Portuguesa. De grosso modo: o contrato social.

 

Estamos todos conscientes que o momento actual é especial, pelas tensões e malformações que se podem gerar na sociedade, e perante este momento não posso deixar de expressar a estranheza perante a táctica e dúbia opção católica, e de lembrar que a mesma teatral mas insegura Igreja optou muitas das vezes pelo confortabilíssimo lugar na conveniência da manutenção do seu poder, aquando de outro poder tão obscurantista quanto o seu pode ser.

 

Procissão de San Rocco, Itália, 1973. Foto de Henri Cartier-Bresson


publicado por Gabriel Carvalho às 02:29 | link do post | comentar

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