Quinta-feira, 29 de Novembro de 2012

Regresso sempre a Sophia de Mello Breyner, não sei porquê. Aliás, sei bem porquê. É que, além das palavras eleitas, as mais bem escolhidas, a sua voz de poeta concede a essas mesmas palavras o significado e a nobreza da sua alma profunda, sua e das palavras. É a voz digna do observador, que lê nos olhos do semelhante a condição e os acontecimentos, e a leva à acção, e que tantas vezes agiu lendo as palavras e a expressão dos olhos do seu povo.

 

Não conheço as leituras do Primeiro-Ministro Pedro Passos Coelho. Provavelmente serão leituras económicas economizadas, dos mestres dessas ciências maiores. Não terá tempo para mais, absorvido que está no seu ofício. Ou poderá dizer-se que outras leituras mais prosaicas enfraquecerão o espírito, tão determinado em obedecer às vontades.

 

Se me fosse permitido, sugeria ao Senhor Primeiro-Ministro, a leitura de um poema relativamente curto, a ser lido pesando com gravidade e se possível sentindo o significado de cada palavra, e sentindo sinta a dor de uma pedra arremessada ou de um grito - expressões de inaceitável violência -, para que de imediato ou com tempo, compreenda melhor a realidade, e viva um pouco acima das suas possibilidades:

 

Esta gente cujo rosto

ás vezes luminoso

E outras vezes tosco

 

Ora me lembra escravos

Ora me lembra reis

 

Faz renascer meu gosto

De luta e de combate

Contra o abutre e a cobra

O porco e o milhafre

 

Pois gente que tem

O rosto desenhado

Por paciência e fome

É gente em quem

Um país ocupado

Escreve o seu nome

 

E em frente desta gente

Ignorada e pisada

Como a pedra do chão

E mais do que a pedra

Humilhada e calcada

 

Meu canto se renova

 

E recomeço a busca

De um país liberto

De uma vida limpa

De um tempo justo

 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in Geografia (1967).

 

Foto de Eduardo Gageiro.


publicado por Gabriel Carvalho às 16:26 | link do post | comentar

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