Sábado, 21 de Junho de 2014

 

Há uma certa parte da esquerda moderada, militante no PS e em partidos da família política do PS, a que podemos chamar de ‘terceira via’ (ou, na minha opinião, seria mais correcto chamar ‘direita que milita em partidos de esquerda’), que insiste em não perceber o que se está a passar à sua volta, muito à imagem da direita propriamente dita.

 

Se na direita o objectivo é claramente o de defender uma ideologia ao serviço do Capital com falsos pretextos, no caso desta ‘esquerda’ não se percebe se é uma fidelidade cega a uma perspectiva ideológica (que também justifica a adesão de alguns bem-intencionados ao neoliberalismo), se é apenas ingenuidade ou falta de compreensão da realidade, ou se, ultrapassando-nos a todos pela esquerda, é a materialização de uma perspectiva Leninista de infiltração nos partidos de esquerda por parte das ideias de direita. Seja qual for o caso este não é mais aceitável deixar essas ideias sem contraditório claro.

 

Vem isto a propósito de um texto (que eu pensava ser recente, mas foi apenas recentemente recuperado no contexto da actual disputa no PS) do expoente máximo, e mais orgulhoso, da terceira-via na direcção nacional do PS, João Ribeiro. Eu reconheço qualidades intelectuais e políticas ao João Ribeiro, tal como reconheço a Vítor Gaspar, mas não posso deixar de achar que ele está errado em toda a linha, tal como está Vítor Gaspar.

 

 

 

 O João Ribeiro pretende mostrar-nos um quadro em que todos os partidos socialistas na Europa estão a definhar, ao contrário do nosso PS, por não conseguirem fazer, como Seguro conseguiu entre nós, uma modernização dos seus programas políticos, mantendo-se agarrados “uma agenda conservadora sem sentido da história”, assente “exclusivamente na defesa dos sectores mais tradicionais do Estado Social de sucesso que construíram”. Contrapõe o nosso projecto de Blair que a esquerda tem de saber defender “uma nova agenda de modernidade” que “abraça uma realidade de serviço público multidimensional, mais flexível aos interesses criticamente apreendidos por uma nova geração de cidadãos autónomos”. As palavras definidoras do que deve ser a ‘nova esquerda’ (na sua enésima encarnação) são suficientemente vagas para toda a gente nelas se rever sem dificuldade, à semelhança do que costuma fazer discursivamente também a direita, mas nos últimos anos todos nós já conseguimos aprender o que estes eufemismos significam: privatização, liberalização, desregulação.

 

João Ribeiro dá-nos vários exemplos deste conservadorismo que conduziu a péssimos resultados: a Alemanha, do SPD que está no governo com a direita e foi antes governado por Schroder; a França, governada pelo Hollande que prometera atacar a finança e atacou as finanças públicas; a Grécia, na qual o PASOK abraçou o programa de austeridade com prazer e se tornou na muleta da direita; a Espanha, em que Zapatero foi apenas mais um dos muitos seguidores de Blair, que dominaram a família política europeia dos Socialistas nas últimas duas décadas; e a Suécia, onde o declínio eleitoral dos Socialistas desde 1990 tem acompanhado a sua adopção de políticas de inspiração neoliberal (como a abertura a uma maior intervenção privada na educação que não tem dado assim tão bons resultados). Acresce a todos este conservadorismo que, em quase todos (se não mesmo todos) estes casos, têm aparecido dissidências à Esquerda nos Socialistas (França, Alemanha, Espanha e Grécia) ou têm sido reforçadas as votações em outros partidos mais à esquerda (Grécia, Espanha e Suécia). Aliás o próprio João Ribeiro reconhece que “Na Alemanha apenas dois anos depois da longa governação do pragmático Schroeder, apareceu o Die Linke, recheado de dissidentes do SPD”, na França “Em 2008, o PSF assistiu também a uma cisão com a criação por um seu dissidente do Parti de Gauche”, não falando nos aumentos de votação dos partidos à esquerda dos Socialistas, como no caso do Syriza na Grécia, porque talvez fosse demasiado ostensivo.

 

Ou seja: depois de anos de neoliberalização dos partidos Socialistas que provocaram uma fuga de votos (e a criação de partidos) à esquerda, a solução apontada pela terceira-via é que ainda não fomos longe o suficiente e um bocadinho mais de ‘refrescamento’ neoliberal é mesmo aquilo que precisamos. Mais uma vez, aqui está replicado o mágico raciocínio da (restante?) direita: depois de décadas de reformas no sentido de liberalizar e privatizar a economia, que conduziram à crise em que estamos, aquilo que estamos mesmo a precisar é de mais um bocadinho de neoliberalismo para resolver todos os nossos problemas.

 

Entretanto perante o evidente falhanço da terceira-via, os que defendem esta visão continuam alheados da realidade e apelidando todos os outros de conservadores por ainda não se terem completamente rendido às ideias da direita, enquanto a família política Socialista Europeia, inspirada por estas ideias, continua no seu caminho para o suicídio ideológico, na cama com a direita Europeia.

 

Esta ‘esquerda’(?), tal como a direita, analisa a história recente recorrendo à falácia de Petitio Principii: assumem que a terceira-via é a solução de todos os problemas, tal como a direita assume em relação ao neoliberalismo, analisam toda a história de falhanço da terceira-via nas últimas décadas como causada pela insuficiência de uma mais vigorosa terceira-via, como a direita faz com o neoliberalismo, e acabam por concluir a sua hipótese de base de que a solução de todos os nossos problemas é mais terceira-via, ou mais neoliberalismo no caso da direita. No fim, neoliberalismo ou terceira-via acabam por ser mais ou menos a mesma coisa…

 

É caso para perguntar a João Ribeiro: na sua visão “Seguro Salvou o PS” de quê? De ser Socialista?

 

Enquanto nós estamos a ser dominados (e ‘empatados’) por quem aparentemente comete os mesmos erros de raciocínio que a direita (seja qual for a razão para isso), esta continua a prosseguir com um extraordinário sucesso o seu verdadeiro objectivo: “Crise tirou 3,6 mil milhões aos salários e deu 2,6 mil milhões ao capital”



publicado por Gonçalo Clemente Silva às 20:13 | link do post | comentar

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