Quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

 

Em 2011, já depois do chumbo do PEC IV e da demissão do Governo de José Sócrates que conduziriam às eleições antecipadas, o PS realizou um Congresso (antecedido de directas) que reconduziu Sócrates, pela última vez, à liderança do partido.

Nessa altura, irritando muitos dos meus amigos mais ‘Socráticos’ (e que ainda são alguns), assumi a minha vontade de apoiar (apesar de não ser ainda militante do PS) António José Seguro (tão ingénuo que eu era), caso ele decidisse ser consequente com o seu passado recente e desafiar a liderança do, à altura, Primeiro-Ministro. Não o fez, esperando pacientemente pela inevitabilidade da queda de Sócrates e poupando-me a ter no meu percurso o ónus de o ter apoiado.

A minha razão era simples: o fundamental era derrotar a direita e eu nunca tinha sido propriamente um apoiante entusiasta de Sócrates (curiosamente são estas mesmas algumas das razões que me levam hoje a ser opositor de Seguro). Assim, fazia todo o sentido sacrificar um líder desgastado e que nunca venceria as eleições para poder ter hipóteses de as vencer com uma nova liderança, fresca, que pudesse renovar a imagem do partido e distanciar-se do memorando de entendimento a fim de evitar o mal maior.

Seguro não avançou e o resto é história: Sócrates foi reeleito quase sem oposição, bateu-se na sua derradeira batalha enquanto líder do PS e, fruto de todo o desgaste e da anunciada austeridade (com a direita, na altura, a prometer aliviá-la, não esqueçamos), sofreu a pesada derrota eleitoral (menos 3,5% do que Seguro teve nas Europeias) que conduziu a direita ao poder e Seguro à liderança do PS nas calmas. Confesso que nunca lhe perdoei o tacticismo, como nunca perdoaria, confesso, a Costa se ele nas actuais circunstâncias não desse o corpo às balas.

 

Anos antes, aquando da demissão de Ferro Rodrigues e da candidatura de Sócrates a Secretário-Geral do PS, Seguro terá sido travado na sua pretensão de ser também candidato (diz-se que com promessas, por parte de graúdos barões do partido, de que ‘o seu tempo havia se chegar, se esperasse’, sendo certo que as hipóteses de vitória eram reduzidas), deixando Sócrates com livre-trânsito para a liderança do partido, apenas com a oposição de João Soares (hoje com Seguro) e de Manuel Alegre (que protagonizou a candidatura da ala esquerda – Ferrista – do partido, que está praticamente toda hoje com António Costa).

 

Durante os seis anos seguintes Seguro esperou, não sem ir dando sinais, disfarçados para a opinião comum, mas muito claros dentro do PS, de uma grande distância em relação a Sócrates (refira-se, seu rival-siamês desde sempre no PS, mesmo quando, juntos, estiveram no circulo restrito de apoiantes de Guterres quando este conquistou o partido a Sampaio, este último apoiado por Costa). Abstenções, poucas diga-se de passagem, em diplomas do Governo, críticas a propostas do Governo e do PS, quilómetros sem fim no ‘roteiro da carne assada’, até entrevistas a jornais em plena crise do segundo governo de Sócrates (‘Abram alas para Seguro’, que em 2010 anunciava a disponibilidade que não concretizou até Sócrates se ter demitido da liderança do PS um ano depois), em todo o tipo de discretas conspirações esteve Seguro envolvido ao longo desses 6 anos.

 

 

Tenho de dizer que não tenho rigorosamente nada contra esse percurso de Seguro. Acho saudável que aqueles que não se revêem nas lideranças possam fazer o seu caminho à margem da primeira linha do partido, sem que tenham de assumir um combate frontal (até porque ele seria desleal para com o partido e a liderança eleita) até entenderem que chega o seu momento. É pena é que Seguro não tenha já essa opinião, achando inaceitáveis as movimentações oposicionistas dentro do partido agora que o lidera.

Quanta paciência e calma Seguro teve ao longo de todos esses anos. Confesso que um autocontrole nos limites é a única explicação para um episódio que não posso deixar de referir, demonstrando o quanto ele esperou pelo momento dele. Na própria noite da derrota eleitoral de 2011, Seguro e os seus apoiantes têm dificuldade em fingir-se tristes pela derrota. Pouco tempo depois de, após o discurso de derrota, Sócrates ter saído sozinho do Hotel Altis, dá-se o caricato episódio que poucos Socialistas alguma vez esquecerão: a espera pelos jornalistas, junto ao elevador que conduz à zona onde eles estão, para aparecer, com um conjunto destacado de apoiantes com dificuldades em conter a vontade de saltar para a primeira linha, e declarar que ‘nunca vira a cara ao partido’ anunciando para poucos dias depois uma conferência de imprensa em que falará sobre o futuro do partido e onde acabaria por divulgar o segredo de polichinelo: a sua candidatura a secretário-Geral. Nunca gostei de Sócrates, mas confesso que foi uma das coisas mais tristes que já vi. Nesse momento confirmei a minha decisão de não o apoiar nessas eleições.

 

Todo este percurso, toda esta paciência, toda esta postura é o pecado original de Seguro e parece-me ser a principal razão pela qual a campanha de Seguro está a atingir níveis, na minha opinião, tão baixos. É a razão pela qual tudo isto é pessoal para seguro e os seus apoiantes. Afinal de contas, ele portou-se bem, fez tudo como lhe disseram, seguiu uma sólida carreira equilibrando a lealdade ao partido (e aos seus líderes, ainda que pelos mínimos no caso de Sócrates), não fez ondas e não desafiou as lideranças de que não gostava; enfim, fez tudo o que era de esperar de um (mantenho a elevação e abstenho-me de qualificar de outra forma) militante responsável e respeitável do partido. E agora fazem-lhe isto? Ele fez tudo o que era esperado e acha (materializando legítimas expectativas, concedo) que tem direito a tudo aquilo que, se não lhe prometeram, pelo menos lhe indicaram que teria.

 

Acontece que ser líder do PS e, ainda mais, ser Primeiro-Ministro não é um prémio de carreira, nem um louvor de serviços prestados. Admito que Seguro quisesse e tenha feito tudo dentro dos cânones do ‘business as usual’ da política (que ele tanto critica agora, mas enfim), mas a política não é um sítio com progressões automáticas e lugares garantidos. Vivemos tempos excepcionais em que é fundamental ter as melhores soluções e apresentar as melhores alternativas, o custo do falhanço é demasiado alto. Em circunstâncias normais Seguro continuaria líder do PS e seria Primeiro-Ministro, mas não nas actuais circunstâncias, não com os riscos que corremos!

 

Acresce a tudo isto que saúdo aquilo que Costa fez e Seguro não fez: não, não é traição; é, num momento de vital importância para o Partido Socialista e para o país, dar o corpo às balas e apresentar alternativas, sem esperar, como fez Seguro, por uma derrota eleitoral (já no próximo ano ou no ano seguinte, quando um Governo minoritário de Seguro caísse perante um PSD liderado por Rui Rio) para aparecer como um salvador que mais não é que um tacticista político.



publicado por Gonçalo Clemente Silva às 01:57 | link do post | comentar

1 comentário:
De Abelha Maia a 17 de Setembro de 2014 às 14:55
Sublime.
Afinal o calimero do Tozé andou a minar o Sócrates. Não avançou no congresso de 2011 quando em 2010 já o admitia. Foi taticista.
Ai ai o menino. Vai levar tau tau.


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