Segunda-feira, 20 de Janeiro de 2014

Aquela massa a que chamam cinzenta e está segura e contida no crânio, mas sobre a qual nunca tiveram a curiosidade de saber a verdadeira coloração, nunca lhe serviu para rigorosamente nada a não ser a constante meditação e contemplação, prescrutadora e especulativa da razão da dobra do seu umbigo. Pode estar a ler, a ditar, que o seu umbigo está lá, na doçura ou avidez do seu pensamento. É uma atitude beata e de cuidado permanente. Por muito bons assessores, dos mais diversos mesteres, que o rodeiem, aquilo que guarda ao ver um Joan Miró, logo se lhe escapa, no movimento descendente dos olhos que deslizam do cimo da deslumbrante ou brilhante e elegante caixilharia até ao umbigo. Nem o uso da calculadora consegue por em prática, tal como faz o bom banqueiro no seu ofício multiplicante. Um retângulo de grés, 10 cm x 15 cm, de uma imitação barata do mármore cativa-o tanto quanto um Joan Miró, um Henrique Pousão, um Vieira Portuense, um António Carneiro, um Juan Gris, um Manet, um Toulouse-Lautrec, um Gauguin, Vincent Van Gogh, um Degas, um Cézanne, um Kirchner, um Otto Mueller, um Chagall, um Braque, um Munch, um Bacon, Francis, um Bosch, Brueghel, um Goya, um Greco, Velasquez, um Souza-Cardoso, e aquela lista interminável de renascentistas italianos que percorre as cidades de Itália e acaba no teto da Capela Sistina. Perante tamanha arrogância de o confrontar com todos estes nomes disformes, o labor de retorquir leva-o a responder com semelhante arrogo: uma Joana Vasconcelos. É isso que de facto conhece, a estreiteza de vistas em formas ampliadas, que enchem os olhos tapando qualquer foco natural de luz e os seus significados óbvios que não contribuem para exercitar o intelecto. Numa miniatura pitoresca fazem lembrar aquela diretora de um museu municipal de uma cidade da média dimensão portuguesa, que descrevendo o seu espaço, o defende tão dignamente como se da sua casa se tratasse, enumerando as suas qualidades, do génio da sua história local, que infelizmente já não posso descrever porque não recordo, nem me lembro de alguma das suas obras dignas de registo, e termina dizendo que o seu museu, causa espanto. Um dia lá passará em digressão uma exposição da Joana Vasconcelos, largamente cara, que é o melhor motivo de publicidade para o uso do presidente da câmara local, e uma das insufladas peças da artista ocupará uma ou duas salas do espantoso museu.

 

 

 



publicado por Gabriel Carvalho às 21:39 | link do post | comentar

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