Terça-feira, 30 de Setembro de 2014

Antes de António Costa aproveitar a enorme falta de bom-senso de António José Seguro na noite eleitoral das eleições europeias, o PS tinha uma tarefa decisiva no horizonte – governar de modo substantivamente diferente do actual governo. Essa seria a razão principal pela qual o PS (e consequentemente António José Seguro) muito provavelmente teriam ganho as eleições legislativas em 2015. A tarefa de governar de modo verdadeiramente alternativo ao actual governo não seria nada fácil face a todos os condicionalismos existentes mas seria absolutamente crucial. Em caso de insucesso, não seria difícil antever a transformação de um eleitorado desconfiado num eleitorado descrente em qualquer solução política para a crise, com consequências imprevisíveis no sistema partidário e na qualidade da nossa Democracia, o que apenas contribuiria para agravar as duras condições de vida da maioria dos portugueses.

 

Essa tarefa árdua ficaria necessariamente comprometida à partida no caso de coligação com o PSD. Nesse sentido, António Costa permitiu manter a esperança que o PS cumpra o seu papel. Mas não fez (nem poderia fazer) mais do que isso porque, ao contrário do que muitos dos seus apoiantes acreditam ferozmente, a chegada do PS ao poder não é um fim mas um meio. Ou seja, mesmo que obtenha maioria absoluta, essa vitória apenas será, tal como a vitória nas primárias, um meio de Costa cumprir a tarefa que antes aguardava Seguro – governar de modo diferente deste governo no conteúdo e na forma.

 

Noutras circunstâncias esta diferença esbater-se-ia mas nos dias que correm ela será fundamental. Tal como as regras costumeiras de chegada ao poder num partido político não se aplicaram a Seguro, as regras costumeiras da alternância “light” dificilmente continuarão a ser aceites pelos portugueses. Não sei se António Costa tem a percepção da importância de não falhar no governo mas convém que comece a pensar muito seriamente numa estratégia para isso não acontecer. Escrevo “pensar” propositadamente pois mais importante que comunicar eficazmente essa estratégia, algo que a maioria dos comentadores considera a principal tarefa de Costa nos próximos tempos, é construí-la sistemática e globalmente. Para depois a comunicar sectorialmente.  

 

Uma estratégia deste tipo tem de ser (no mínimo) inventiva para permitir controlar algumas condicionantes e demonstrar que um governo não é apenas um grupo de funcionários bem-intencionados que lidam com as circunstâncias. Um dos problemas estruturais desta crise é o cerco à Política feito pela narrativa da ausência de alternativa realista, atirando-a para um reduto de mera decisão (inevitável). Ora a Política tem de transformar, tem de ter capacidade de moldar ou romper as condicionantes, pelo que um governo tem, para além de lidar com as circunstâncias, de ter a capacidade de criar novas circunstâncias.

 

Resumindo, se Costa perceber tarde o que está verdadeiramente em causa… pode ser tarde de mais. Mas mesmo depois de perceber, resta a verdadeira prova da governação. Até lá, resta apenas a esperança.

 

Joos de Momper, Tobias' Journey (séc. XVII)


publicado por Pedro Silveira às 21:37 | link do post | comentar

Catarina Castanheira

Fábio Serranito

Frederico Aleixo

Frederico Bessa Cardoso

Gabriel Carvalho

Gonçalo Clemente Silva

João Moreira de Campos

Pedro Silveira

Rui Moreira

posts recentes

Entre 'o tudo e o nada' n...

Le Portugal a vol d'oisea...

Recentrar (e simplificar)...

Ser ou não ser legítimo, ...

O PS não deve aliar-se à ...

(Pelo menos) cinco (irrit...

Neon-liberais de pacotilh...

Piketty dá-nos em que pen...

Ideias de certa forma sub...

Ideias de certa forma sub...

arquivos

Janeiro 2016

Outubro 2015

Abril 2015

Março 2015

Fevereiro 2015

Janeiro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Julho 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Fevereiro 2014

Janeiro 2014

Dezembro 2013

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Julho 2013

Junho 2013

Maio 2013

Abril 2013

Março 2013

Fevereiro 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012