Quinta-feira, 15 de Outubro de 2015

 

troika esquerda eleições(Imagem de Pedro Vieira, através de Paulo Querido)

 

Já muito foi dito sobre o actual impasse pós-eleitoral – de que saliento os contributos do Pedro Silveira (aqui, aqui e aqui), do Porfírio Silva (aqui e aqui) e do Paulo Pedroso (aqui), entre muitos outros – e ainda muito há a dizer sobre vários dos seus aspectos. No entanto, dada a euforia (e a histeria) que reina em todos os lados (present company included), embora em lado nenhum atinja os níveis de radicalismo que atinge no Observador, parece-me importante recentrar o debate na sua essência.

 

Por isso, é importante voltarmos aos resultados da noite eleitoral e ao contexto da Comissão Política Nacional que se lhe seguiu, onde se decidiu o rumo a seguir.

 

As eleições resultaram numa vitória da coligação de Direita, é certo e politicamente significativo (e surpreendente), mas isso sozinho não explica o problema objectivo que temos entre mãos. Num cenário de maioria absoluta da Esquerda (107 deputados para a Direita e 122 para a Esquerda, sem contar com o Deputado do PAN) é importante perceber, seja qual for a nossa opinião sobre o desejável, como é que se assegura a formação de um governo e consequentes aprovações de Orçamentos do Estado.

 

(Para aqueles que acham que as categorias de Esquerda e Direita são redutoras e/ou ultrapassadas, eu pergunto: estão a ver o cenário de acordo entre PS e CDU/BE ser possível entre PSD e CDU/BE? Não, pois não? Então a questão mantém-se independentemente do nome que queiram dar às coisas.)

 

Mesmo que defendamos um governo de Direita, a questão das condições de governabilidade não deixa de se colocar e é nesse contexto que temos de olhar para a decisão que o PS tomou na sua reunião da Comissão Política Nacional.

 

Nessa reunião, o mais determinante foi que, ao contrário de em todas as eleições anteriores, apenas há um único partido que, não sendo o mais votado, pode assegurar a governabilidade ao país, seja à Esquerda ou à Direita: o Partido Socialista. No actual Parlamento nenhum arranjo partidário permite a governabilidade sem o PS, isto é um facto. Portanto, o Partido Socialista não poderia simplesmente decidir ir para o seu lugar de ‘oposição responsável’ sem, por abstenção ou aprovação, decidir dar o seu apoio a uma ou outra solução de governo. Admito que muita gente ache que o PS deveria viabilizar, nem que fosse pela abstenção, o Governo e o Orçamento (pelo menos um) da coligação de Direita. Acontece, no entanto, que o Partido Socialista prometeu aos eleitores na campanha eleitoral não viabilizar um governo da Direita nem aprovar o seu Orçamento, colocando-se antes das eleições o cenário que hoje se coloca. Aliás, a Direita não pode vir dizer que os eleitores que votaram no PS não votaram para a solução que hoje se vislumbra, porque fizeram campanha exactamente tentando assustar os eleitores com essa possibilidade. E devem ter tido sucesso, a avaliar pelo resultado das eleições.

 

Posto isto, a questão que coloco a todos é:

 

O Partido Socialista deve viabilizar o Governo e o Orçamento da Direita, ignorando aquilo que expressamente disse na campanha? E, se sim, conseguem dizer isso com cara séria depois de nos últimos quatro anos, pelo menos, terem chamado mentirosos aos políticos por não cumprirem o que prometem em campanha?

 

Ou, alternativamente, acham que o PS deve cumprir o que disse na campanha e votar contra o Governo e os Orçamentos, lavando daí as suas mãos, sem se preocupar com as consequências para o país nem apresentar alternativa?

 

É que se não concordam com nenhuma das anteriores, o que resta é exactamente o que o PS está a fazer: procurar uma alternativa política que lhe permita inviabilizar a governação da Direita, tal como tinha prometido, sem que isso implique que o país fique absolutamente ingovernável no futuro próximo, sem Governo nem Orçamento até, pelo menos, o próximo verão.

 

Sou só eu que acho isto tudo absolutamente evidente?



publicado por Gonçalo Clemente Silva às 23:01 | link do post | comentar

1 comentário:
De Porfírio Silva a 16 de Outubro de 2015 às 01:11
Bem estruturado o algoritmo de decisão!


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